por Waldeck Alves – jornalista – Sábado, 28 de março de 2026
Foi formalizada a chapa da base oposicionista para as eleições de 2026 ao governo da Bahia. A escolha de Zé Cocá representa um acerto político e estratégico, tanto pela força de sua liderança regional quanto pela tentativa de ampliar a densidade eleitoral de ACM Neto no interior.
Em 2022, observou-se uma disparidade expressiva: nos municípios menores, a média de votação foi amplamente favorável a Jerônimo Rodrigues , chegando a cerca de 65% , enquanto o desempenho de Neto se concentrou mais nos grandes centros. Nesse contexto, Cocá surge como peça importante. No entanto, é preciso contextualizar : ele já estava com Neto em 2022 e, no pós-eleitoral, chegou a acusá-lo publicamente de ingratidão e de não valorizar aliados.
Esse desgaste se aprofundou ao longo dos anos e levou o prefeito de Jequié a uma aproximação com Jerônimo. Durante as negociações, seu apoio à base governista chegou a ser condicionado a cerca de R$ 500 milhões em investimentos para sua região. Para o governo, tratava-se de um custo elevado e direcionado , especialmente considerando que Jerônimo venceu em Jequié, com 51% dos votos, e em todas as 16 cidades do Médio Rio de Contas, mesmo sem o apoio de Cocá em 2022.
A permanência de Cocá no grupo de Neto, mediante a promessa de investimentos semelhantes caso a oposição vença, não pode ser vista propriamente como ganho político. Trata-se, antes, de uma articulação defensiva para não perder palanque no interior , uma soma “dos nossos”, e não “dos outros”.
Outra figura central nesse tabuleiro é Zé Ronaldo. Ninguém questiona seu capital político nem sua força em palanque, especialmente em Feira de Santana. O problema reside nos desdobramentos ambíguos de sua relação com ACM Neto, que, longe de se pacificar, parece tensionar-se ainda mais com o tempo.
As cicatrizes de 2022 seguem abertas. Ainda que os ressentimentos apareçam apenas nas entrelinhas, há um evidente distanciamento emocional e político. Durante certo período, Zé Ronaldo ensaiou uma aproximação com Jerônimo, materializada em agendas conjuntas, investimentos em Feira e uma relação institucional mais visível. Subjacente a isso, porém, havia também um movimento de acerto de contas , uma resposta calculada às humilhações públicas sofridas por ACM Neto em 2022
O lado positivo para Jerónimo nessa aproximação “ institucional “ com Zé Ronaldo foram investimentos estaduais no município que ajudaram a impulsionar o capital político do governador em Feira de Santana. Pesquisas recentes indicam um cenário para as eleições de 2026 próximo de um empate técnico e hoje figura entre as cidades com melhor avaliação do governo estadual, segundo pesquisas.
Os episódios recentes evidenciam que a ferida está longe de cicatrizar . Veja : No dia do anúncio da chapa, com a confirmação de Cocá como vice, ACM Neto divulgou um encontro em Feira de Santana. No dia seguinte, Zé Ronaldo afirmou, em entrevista, que não havia sido informado previamente nem sobre a reunião da chapa nem sobre o encontro em sua própria base eleitoral.
É difícil imaginar que uma liderança do seu porte, ainda mais cortejada pelo grupo governista, fosse simplesmente ignorada sem consequências. Na política, ninguém se expõe publicamente sem cálculo. A reação de Zé Ronaldo foi um recado.
Diante da repercussão, ACM Neto precisou intervir: telefonou, pediu desculpas e mobilizou aliados para conter o desgaste. Zé Ronaldo, por sua vez, adotou um movimento ambíguo , aceitou o gesto, mas emitiu a mensagem no seu Instagram com card somente com sua foto como convite para o encontro , que soou como sinalização de força: “aqui, quem manda sou eu”.
A recusa em compor a chapa como vice de Neto passa diretamente por esse acúmulo de ressentimentos, pela desconfiança e pela recusa em assumir compromissos políticos plenos com Neto.
Engajamento, articulação e mobilização não se decretam , dependem de confiança. E confiança, uma vez rompida, cobra seu preço.
Nesse cenário, o eventual “cruzar de braços” durante a campanha , ainda que disfarçado no discurso , pode ser, na verdade, cálculo político. Com bom trânsito no governo estadual e beneficiado por investimentos em Feira, Zé Ronaldo mantém uma porta aberta para um eventual novo mandato de Jerônimo, sem romper formalmente com seu grupo.
Se Neto perder, Zé Ronaldo assiste à sua possível inviabilização eleitoral para 2030. Se vencer, ele próprio sabe que continuará fora do radar prioritário do ex-prefeito de Salvador.
Afinal, dentro do grupo oposicionista, Zé Ronaldo é talvez o único nome com densidade para protagonizar um projeto futuro , e isso, em política, também gera contenção.
As cicatrizes do resultado de 2022 em Feira de Santana foi um alerta de uma relação conturbada . ACM Neto venceu Jerônimo por pouco mais de 8 mil votos, num universo de cerca de 371 mil votantes , uma margem estreita para um reduto historicamente dominado pelo grupo.
Ficou a sensação de que “o jogo” foi, no mínimo, conduzido com inércia. O apoio liderado por Zé Ronaldo não teve a intensidade esperada.
Ao que tudo indica, Zé Ronaldo não quitou as contas políticas de 2022 à vista. Está pagando em parcelas , com juros, tempo e cálculo.
Imagem: IA/Chat GPT