“One Health”: quem opera contra a Saúde Coletiva

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O conceito aterrissa no Brasil em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única, que dialoga com tradições da Saúde Pública. Mas de ter um olhar crítico sobre seus modos de implementação – e a quem interessam

Por Heleno Corrêa Filho

Pesquisadores e trabalhadores da saúde pública mundial se encantaram com a promessa executiva e acadêmica da aplicação de conceitos totalizadores da Saúde Única (“One Health”). No Brasil, em 2024, colocaram em prática a proposta de empregar esse arcabouço conceitual para reorganizar políticas públicas que sustentam tanto as diretrizes da Saúde Coletiva quanto as bases constitucionais do Sistema Único de Saúde (SUS).

One Health, cavalo de troia?
Ministério da Saúde parece flertar com projeto que desconsidera conquistas políticas e teóricas da Reforma Sanitária. Um artigo expõe suas origens e problemas, e questiona: por que ele começa a ser construído sem debate com o CNS e em parceria com entidades que se opõem ao SUS?

O entusiasmo inicial, no entanto, rapidamente entrou em choque com o reconhecimento da Determinação Social da Saúde (DSS). O que era um encantamento filosófico e conceitual foi atropelado por uma implantação verticalizada e acrítica, associada a atores historicamente adversários da Saúde Coletiva e do SUS.

Esse encantamento também se explica pelo cenário internacional. Em grande parte do mundo, o direito à saúde ainda se encontra em estágio incipiente. Poucos países do capitalismo ocidental – como Inglaterra, Canadá e Brasil – reconhecem a saúde como direito e dever do Estado. Mesmo com limitações decorrentes da privatização e da restrição de ofertas, o conceito de “One Health” representa avanço, sobretudo em países latino-americanos sem sistemas universais.

Para esses contextos, a ideia, desenvolvida entre 1918 e 1976 nos Estados Unidos e posteriormente difundida na América Latina, surge como progresso possível: quem não tem nada e avança passa a ter um pouco.

Saúde Única em oposição à Saúde Coletiva

No Brasil, porém, os promotores que financiam e apoiam a introdução da “One Health” como diretriz – inclusive em ações epidemiológicas intersetoriais – passaram a se articular com setores contrários à Saúde Coletiva. Essa influência se reflete em formulações que tensionam princípios como integralidade, equidade e universalidade do cuidado.

O resultado foi um choque entre a plausibilidade conceitual da proposta e a organização político-administrativa de sua implementação. Desde o início, houve exclusão do patrimônio histórico da Saúde Coletiva, responsável por fundamentar constitucionalmente o SUS. A proposta, inicialmente apresentada como “ação programática”, incorporou adversários históricos e afastou protagonistas da luta sanitária brasileira. Até 2026, a “One Health” no país se desenvolve em meio a conflitos econômicos, legais, políticos e institucionais.

Novos e velhos adversários

Nesse contexto, amplia-se o rol de atores que operam contra a Saúde Coletiva – inclusive dentro dos próprios Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

Esses adversários incluem diferentes grupos. Muitos desses agentes sequer figuravam no horizonte das disputas sanitárias antes de 2024:

1. Os vendedores de agrotóxicos, liderados por multinacionais de xenobióticos, combatem estudos e pesquisadores, perseguem juridicamente camponeses, financiam repressão e até violência contra organizações como MST e Via Campesina. Os conflitos não se restringem às corporações: envolvem também narcotráfico, crime organizado, contrabando e milícias interessadas nesse mercado;

2. Os promotores de monoculturas transgênicas, altamente dependentes de agrotóxicos, buscam controlar e financiar pesquisas públicas voltadas a commodities. A produção transgênica, animal e humana, depende intensamente desses insumos. Seus defensores se colocam como adversários da Saúde Coletiva brasileira e da própria Saúde Pública internacional;

3. Vendedores de insumos para controle de endemias, baseados no uso intensivo de xenobióticos, dizem apoiar a vigilância no SUS, desde que centrada no bombardeio químico. Opõem-se a práticas comunitárias de controle de criadouros e preservação ambiental. O conflito reside no interesse da indústria química frente ao trabalho de agentes públicos e tecnologias sociais sem uso de venenos;

4. Os vendedores de produtos à base de asbesto (amianto) contestam a Saúde Pública por evidenciar doenças e mortes associadas, como o mesotelioma de pleura. Em áreas afetadas, há infiltração de lobistas no poderes públicos, atuando em conflito com a Saúde Coletiva. Enquanto conhecem seus adversários, pesquisadores muitas vezes não percebem que são alvo;

5. As “fundações não governamentais multinacionais” atuam para limpar a imagem de setores como amianto, agrotóxicos e transgênicos. Financiadas por grandes grupos econômicos, promovem narrativas “verdes”, cooptam pesquisadores e oferecem remunerações acima do padrão público, aproveitando-se da precarização acadêmica;

6. Associações governamentais que promovem “inovações conceituais” não acadêmicas financiam servidores mal remunerados e estruturam redes paralelas de pesquisa. No Brasil, atuam na cooptação de setores subfinanciados, incentivam cooperação internacional alinhada a interesses externos e operam com baixa transparência e frágil controle social;

7. Multinacionais farmacêuticas se opõem à Saúde Coletiva e influenciam legislações e pesquisas clínicas. No Brasil, contribuíram para normas que fragilizam direitos de participantes e ampliam o poder de patrocinadores nos comitês éticos. A “Big Pharma” também promove o uso indiscriminado de antibióticos e sustenta patentes e preços elevados, além de financiar ONGs de pesquisa clínica à margem do debate ampliado em saúde;

8. Representantes nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ligados a lobistas atuam como adversários internos. Enfraquecem instâncias participativas, como o Conselho Nacional de Saúde, e utilizam o discurso da “One Health” para encobrir interesses. Combatem políticas baseadas em tecnologias sociais e não dependentes de xenobióticos;

9. Adversários da Saúde do Trabalhador buscam substituir mecanismos de controle social, como os CISTTs e instâncias da RENASTT. A Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) confronta modelos produtivos que geram adoecimento e riscos ambientais, tornando-se alvo de interesses ligados a atividades poluidoras e destrutivas.

Entre o Conceito e a Implementação

Diante desse quadro, até 2026, a “One Health” no Brasil se coloca em cena em um terreno marcado por disputas múltiplas. Não se trata de rejeitar a formulação conceitual da Saúde Única — que dialoga com tradições anteriores da Saúde Pública, como a tríade agente-hospedeiro-ambiente formulada por Wade Hampton Frost. O problema reside nos modos de implementação.

A crítica, portanto, não é à integração conceitual em si, mas à tentativa de sua hegemonização sem diálogo com a tradição da Determinação Social da Saúde. Não se trata de ser contrário às iniciativas conceituais integradoras em saúde que antecederam as bases brasileiras da Saúde Coletiva como consequência da Determinação Social.

Ao desconsiderar contextos econômicos globais e conflitos geopolíticos contemporâneos, a formulação político-administrativa da “One Health” corre o risco de esvaziar o papel do controle social e da participação popular.

Portanto, centro do debate está a escolha dos caminhos para articular setores sociais, administrativos e legais na promoção da saúde. A Saúde Coletiva, entendida como prática da Saúde Pública subordinada ao controle social participativo direto, permanece como referência fundamental para orientar essas decisões.

Fonte: Outra Saúde / Créditos: EasyFarm



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