Por Angela Monize – Terça, 14 de abril de 2026
é difícil falar sobre perspectivas sem citar a coragem. ela está em pequenas decisões, quase invisíveis, como se o corpo soubesse antes da mente que é preciso continuar. é preciso ter coragem.
já tive coragem muitas vezes…
de avançar mesmo sem saber o que encontraria.
de sustentar a esperança quando ela parecia longe demais de minhas mãos.
coragem de fazer um check-in, de abrir um livro, de encarar um diagnóstico, de aplicar insulina à mão firme.
coragem em cada gesto que nos mantém vivos.
até respirar, às vezes, exige isso. uma escolha que fazemos enquanto ansiosos.
outro dia, no ônibus, vi uma moça. estava em uma janela, com o corpo levemente inclinado, como se protegesse o que segurava. uma carta. o papel já não era totalmente branco, havia marcas. talvez do tempo, talvez dos dedos que o tocaram antes. a tinta parecia densa, irregular em alguns pontos, aquele cheiro de papel e tinta de caneta, como se tivesse sido escrita com pressa ou com emoção demais para caber em linhas retas.
ela sorria.
daqueles sorrisos que se guarda no canto da boca, quase secreto. os olhos percorriam o papel com cuidado, como quem revisita algo que ainda pulsa. havia ali uma delicadeza tão sútil, não pedia testemunha, mas eu vi.
e pensando a respeito, existe coragem nisso também…
se permitir sentir,
guardar,
permitir que algo nos aconteça na surpresa de um segredo bem guardado, sem defesas.
a coragem de um amor nos leva a lugares inesquecíveis…
eu gosto de observar o mar e suas ondas. o encaro como quem encara algo maior do que pode compreender. as ondas se levantam diante de mim com uma força quase desproporcional. mais altas do que eu, mais largas do que qualquer cálculo simples. existe um movimento bruto nelas, uma violência rara que só algumas coisas na nossa vida tem ou podem existir.
e ainda assim, são belas.
uma beleza avassaladora…
há quem diga que certas praias não são feitas para entrar. que o mar leva tudo para o seu devido lugar. e talvez leve. mas naquele momento, eu não pensei em absolutamente nada. somente na ideia do que aquilo causava em mim.
o som das ondas era ensurdecedor, mas um silêncio interno me sustentava por alguns instantes. os pensamentos mais torpes recuaram. as ideias repetitivas, as inquietações que costumam me ocupar, simplesmente não encontraram espaço.
fiquei.
olhando.
sentindo o vento atravessar o rosto, o sal no ar, a pele reagindo à umidade, o chão levemente instável sob os pés. nenhuma explicação era tão óbvia quanto sentir tudo aquilo.
uma grandeza sem excessões.
me entrelaçar naquele som, naquela repetição que nunca é igual, naquela força que não se interrompe.
e foi ali que entendi que coragem não é um ato isolado. é um estado que se constrói dentro de si.
ela aparece quando a gente decide não recuar diante do que não entende. quando se sustenta o olhar, quando não se desvia, é quando conseguimos permanecer mesmo sem garantia de conforto.

a coragem é um ato de confronto. confrontar-se e ir. confrontar-se mesmo temendo. confrontar-se e reconhecer-se
conhecer o desconhecido, não exigir respostas.
é viver o que não tem forma ainda, no que não oferece segurança, no que não se deixa prever. é aceitar que há partes da vida que não serão organizadas antes de serem vividas.
e ainda assim, ir.
porque a coragem não elimina o medo. o medo a acompanha.
ela existe ao lado do tremor, da dúvida, da incerteza, e mesmo assim, sustenta o passo.
é um sintoma vivo. circula na gente como algo que precisa ser usado para não desaparecer. quanto mais se pratica, mais ela encontra espaço. quanto mais se evita, mais ela se recolhe.
essa disposição quase íntima de continuar abrindo portas que não sabemos onde dão, de ler cartas que ainda doem um pouco, de olhar o mar mesmo quando ele parece grande demais e perceber que alguma coisa faz sentido.
porque, no fundo, a vida não se revela para quem observa de longe.
ela se manifesta para quem se deixa levar pela coragem de existir.
Foto: Angela Monize