Receita Federal afirma que campanha contra norma de fiscalização favoreceu fintechs usadas por organizações criminosas para lavagem de dinheiro
Por Cleber Lourenço – Sexta, 29 de maio de 2026
A Receita Federal afirmou nesta quinta-feira (28) que a onda de desinformação sobre uma suposta taxação do Pix ajudou organizações criminosas que utilizavam fintechs para lavagem de dinheiro e movimentação financeira clandestina. A declaração foi dada pelo secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, durante coletiva sobre a Operação Fluxo Oculto, deflagrada em conjunto com o Ministério Público de São Paulo e o Gaeco.
Segundo Barreirinhas, a campanha de fake news contra a norma da Receita que ampliava obrigações de transparência para fintechs acabou favorecendo estruturas financeiras utilizadas pelo crime organizado.
“Nós fomos vítimas da maior onda de fake news da história da Receita. Mentiras dizendo que a Receita iria monitorar ou tributar o Pix, que volta e meia tentam emplacar novamente. Nós vimos quem era o interessado nisso: as organizações criminosas que se valiam e valem ainda dessas fintechs para lavagem de dinheiro”, afirmou.
A medida da Receita que acabou no centro da crise ampliava regras de fiscalização já existentes no sistema financeiro para incluir fintechs, bancos digitais e instituições de pagamento. A norma previa o envio periódico de informações financeiras de movimentações acima de determinados valores, seguindo um modelo já aplicado há anos aos bancos tradicionais.
Na prática, a Receita buscava reduzir um vácuo regulatório que vinha sendo explorado por organizações criminosas para movimentação de dinheiro, ocultação de patrimônio e lavagem de recursos por meio de fintechs e contas digitais.
A campanha de desinformação afirmava falsamente que o governo iria “taxar o Pix”, cobrar imposto sobre transferências e monitorar pequenas movimentações financeiras da população. Nas redes sociais, vídeos e publicações viralizaram afirmando que qualquer transação feita pelo sistema poderia ser tributada ou gerar cobrança automática de impostos.
Embora a Receita não tenha citado nominalmente o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o parlamentar foi um dos principais impulsionadores da ofensiva digital contra a medida. À época, Nikolas publicou um vídeo insinuando que a ampliação da fiscalização poderia abrir caminho para taxação do Pix e monitoramento financeiro da população. O conteúdo viralizou nas redes sociais e ajudou a pressionar o governo a recuar da medida.
A Receita sustentava, porém, que não havia qualquer previsão de criação de imposto sobre Pix e que a medida apenas equiparava fintechs às obrigações já impostas ao sistema bancário tradicional.
Operação investiga fintechs ligadas ao PCC
A declaração de Barreirinhas ocorreu durante a apresentação da Operação Fluxo Oculto, considerada pela Receita uma das maiores ações já realizadas contra estruturas financeiras ligadas ao crime organizado. A investigação identificou seis fintechs que atuariam como braços financeiros de organizações criminosas, incluindo o PCC.
Segundo a Receita Federal, as fintechs investigadas movimentaram cerca de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. O esquema utilizava “contas bolsão” e cadeias de fundos de investimento para ocultar os verdadeiros beneficiários dos recursos.
Uma das instituições investigadas, de acordo com a Receita, teria movimentado sozinha mais de R$ 1 bilhão em espécie — operação considerada incompatível com a atividade regular esperada para instituições financeiras desse tipo.
Durante a operação, as autoridades também localizaram mais de R$ 1 milhão em dinheiro vivo dentro de uma das fintechs investigadas.
A Operação Fluxo Oculto cumpriu 59 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul. A investigação é tratada pelos órgãos envolvidos como uma nova fase da Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro, fraudes tributárias e atuação financeira do crime organizado no setor de combustíveis.
Na avaliação da Receita, as investigações revelaram que organizações criminosas passaram a operar estruturas financeiras sofisticadas utilizando fintechs, fundos de investimento e mecanismos digitais para dificultar o rastreamento de recursos.
Barreirinhas também afirmou que, após as investigações, o governo avançou em mudanças regulatórias voltadas ao compartilhamento de informações financeiras e identificação de beneficiários finais, incluindo regras ligadas a criptoativos e fundos de investimento.
Fonte: ICL Noticias /