“A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector: uma história entre sonhos, buscas e conflitos

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Romance é um dos mais importantes da literatura brasileira e convida o leitor a refletir sobre a condição humana, os preconceitos e a relação entre o homem e a natureza

A Possíveis Leitores

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 

C.L. 

Com essas palavras, a escritora Clarice Lispector apresenta o seu quinto romance, A Paixão Segundo G.H., publicado em 1964. Ela o considera como um livro qualquer, porém, ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas “de alma já formada”…

Certo é que os milhares de estudantes (em 2026, foram 111 mil inscritos) vão, com a sua “alma já formada” e pronta, para o desafio das provas da Fuvest 2027. Na primeira fase irão se deparar com questões de múltipla escolha e, na segunda fase, com respostas dissertativas sobre trechos do livro e também sobre as características da autora.

Para orientar os vestibulandos, o Jornal da USP convida a professora Nádia Battella Gotlib, especialista na Literatura de Clarice Lispector. Livre-docente pela Universidade de São Paulo como professora de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na USP, ela observa: “A intenção de Clarice era ser lida por um grande público”. E ressalta: “Prova disso é que, em 1977, acatou o projeto que lhe foi encaminhado pelo editor Jiro Takahashi, da Editora Ática, responsável por fazer uma tiragem enorme, segundo padrões da época, de sua obra Felicidade Clandestina, tal como o editor havia feito de obras de escritores mineiros, que atingiram a marca de mais de cem mil exemplares”.

Mas, infelizmente, Clarice não viu os resultados da sua literatura – nas mãos de milhares de leitores. “Foi hospitalizada e faleceu pouco tempo depois.” Como nos contos que reuniu em Felicidade Clandestina, de 1971, o romance A Paixão Segundo G.H. reflete sobre a crise existencial. 

Nádia Battella Gotlib, professora de Literatura Brasileira da USP e especialista em Clarice Lispector – Foto: Arquivo pessoal

A história de G.H., a barata e os seres humanos

Será que os vestibulandos vão entender os medos, angústias, incertezas, que fluem neste romance de Clarice Lispector? A professora Nádia explica: “A Paixão Segundo G.H. tem tudo a ver com cada um de nós, pois o que está ali em questão é a nossa condição humana. É o ser ‘vivo’, como outros seres vivos animais, ou seja, a barata e os seres vivos humanos, como a personagem Janair. No primeiro caso, o livro propõe a grandeza de uma união simbólica entre o homem e a natureza selvagem animal. No segundo caso, um processo de enfrentar e vencer preconceitos de discriminação, tão latentes ainda nas classes sociais, sobretudo nas de elite, pautadas em mentalidade retrógrada escravagista”.

Clarice acompanhou, em vida, o romance A Paixão Segundo G.H. em cinco edições. A primeira pela Editora do Autor, em 1964; a segunda em 1968 e a terceira em 1972, pela Editora Sabiá; a quarta e a quinta pela Editora José Olympio em 1976. Não chegou a ver as edições cuidadosamente elaboradas pela Editora Rocco com as capas de suas pinturas. Clarice, nesses desenhos, aliou a sensibilidade de escritora com o olhar de pintora, gravadora, desenhista. E, segundo a artista e muito amiga Maria Bonomi, pintar para Clarice era registrar o inefável. “Eram sensações de espontaneidade gráfica. Era muito influenciada em sua poética escrevendo ou na estética de seus desenhos pelo I Ching, livro oracular chinês.” Está aí algo que os vestibulandos podem pesquisar. Clarice usava muito a simbologia do I Ching, consultava o oráculo que usava símbolos, como, por exemplo, a barata.

Clarice Lispector, escritora que leva o leitor a refletir sobre a condição humana – Foto: Wikimedia Commons

Livro que é destaque na literatura brasileira

Na avaliação da especialista Nádia Battella Gotlib, o livro A Paixão Segundo G.H. ocupa posição de suma importância na história da literatura brasileira. E por vários motivos. Mas destaca os pontos essenciais que os vestibulandos devem observar. “Primeiro, o livro registra a história de G.H., mulher da classe alta, que mora em um apartamento de cobertura. É artista, escultora e sem nenhuma preocupação financeira. Mas depois da demissão da empregada Janair, resolve ela mesma fazer a limpeza de seu apartamento e começa pelo quarto da empregada, que acreditava ser o lugar mais sujo do apartamento. Porém, ao abrir a porta, G.H. fica surpresa ao observar a limpeza do quarto.”

G.H. descreve:

… Mas ao abrir a porta meus olhos se franziram em reverberação e desagrado físico. É que em vez da penumbra confusa que esperara, eu esbarrava na visão de um quarto que era um quadrilátero de branca luz; meus olhos se protegeram franzindo-se. Há cerca de seis meses – o tempo que aquela empregada ficara comigo – eu não entrava ali, e meu espanto vinha de deparar com um quarto inteiramente limpo”

Clique no player para conferir o vídeo com a análise de Nádia Battella Gotlib professora de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na USP

Fonte: Jornal da USP / Arte sobre foto: Wikimedia Commons



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