Entre promessas, devoção e memória a tradição que atravessa gerações e transforma casas baianas em espaços de encontro
Antes mesmo da mesa ser posta, a tradição já tomou conta da casa. Está no cheiro do dendê, nas receitas aprendidas com mães e avós, nas pessoas que chegam para ajudar e naquelas que aparecem sem aviso e acabam convidadas a entrar. No caruru de Cosme e Damião, devoção, promessa, obrigação e memória familiar se encontram em uma celebração que atravessa gerações.
Em setembro, cenas como essa se repetem em diferentes casas da Bahia. Para a chefe de cozinha Nasaré Purificação, a força do caruru está justamente na capacidade de reunir pessoas em torno da mesa. Mais do que alimentar o corpo, a tradição também nutre o espírito e o emocional, ao criar um espaço de convivência entre familiares, amigos e até pessoas que chegam de surpresa. É, para ela, um momento em que diferentes sentimentos, histórias e expectativas se encontram em torno da comida e da conversa.
“O caruru é uma refeição que agrega, une as famílias em torno da mesa, une a família para uma boa resenha, para conversa, une amigos também, porque as pessoas fazem caruru e chamam, deixam as portas abertas. Além do Caruru alimentar o nosso corpo, né?!”, afirma a chefe de cozinha.
À frente do Quiosque Cantinho da Praça, Nasaré também mantém a culinária baiana presente na programação do espaço, com pratos típicos às sextas-feiras e uma programação especial aos fins de semana.

Patrimônio imaterial da Bahia
Séculos de tradição popular ganharam chancela institucional em setembro de 2024, quando o Caruru de São Cosme e Damião foi oficializado como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. A medida protege uma das manifestações mais fortes da cultura do estado.
Celebrado todo 27 de setembro, o prato tradicional sintetiza o encontro entre o catolicismo e as matrizes africanas, cultuando os gêmeos e os Ibejis, orixás associados à infância e à dualidade.
No candomblé e na umbanda, a tradição determina que o caruru seja servido primeiro aos Ibejis antes de chegar aos convidados. De acordo com a crença, esse gesto de oferta retorna em forma de saúde e prosperidade. Mas o peso da celebração vai muito além do preceito religioso, reside essencialmente no ato de partilhar.

O caruru que transforma a casa em encontro
A dimensão comunitária do caruru também aparece na própria forma como a celebração é organizada. Para mestre em antropologia, João Caetano, o ritual não é uma prática individual: envolve diferentes pessoas no preparo e transforma temporariamente a casa de uma família em um espaço coletivo.
“Não se faz caruru sozinho. Em geral, se convida, se envolve muitas pessoas para preparar todo aquele banquete. Por algumas horas, uma casa particular pode se transformar numa festa, numa casa de muitos, em que todos serão alimentados. Tanto aqueles que foram convidados, quanto aqueles que estão passando na porta”, explica.
Para João, essa característica ajuda a entender por que o caruru reúne, em um mesmo ritual, dimensões que vão muito além da alimentação. A comida passa a carregar a promessa, a memória, a devoção, o encontro e o cuidado. Na tradição baiana, segundo ele, o sagrado não está separado da vida cotidiana, mas atravessa espaços e gestos aparentemente comuns, como a preparação da comida, a mesa e o ato de compartilhar o alimento.
“A gente junta as pessoas com vários sentimentos diferentes, com várias perspectivas e expectativas sobre o que vai comer, o que vai conversar. O caruru é um afago na alma, ele alimenta a alma e o nosso corpo”, afirma Nasaré.

Um banquete em homenagem aos orixás
Mais do que uma refeição, o caruru é preparado como um banquete carregado de significados. A chefe de cozinha Nasaré Purificação explica que os pratos que compõem a mesa fazem referência a diferentes orixás e estão relacionados a uma lógica de agradecimento e reverência. O caruru, por exemplo, é associado a Xangô; o omolocum, feito com feijão-fradinho, a Oxum; o acarajé, a Oyá; o feijão-preto, a Obaluaiê; e o inhame, a Ogum.
“Cada pedacinho do caruru é para um orixá. É agradecendo, reverenciando a um orixá e agradando. Então, é um banquete em referência aos orixás, em agradecimento”, explica.

De promessa em promessa, a tradição continua
A tradição também encontra uma forma de se multiplicar de uma geração para outra. Segundo Nasaré, em alguns carurus de Cosme e Damião são colocados sete quiabos inteiros na panela. Quem encontra um deles assume o compromisso de oferecer o caruru no ano seguinte, fazendo com que a promessa seja renovada e passada adiante.
“Quem pegar o quiabo vai pagar ano que vem. Então, eu faço caruru, sete pessoas pegam, sete pessoas pagam ano que vem, as sete pessoas fazem caruru, sete, sete, sete, sete, e aí vai se multiplicando”, conta.
Para a chefe, esse ciclo ajuda a manter a tradição viva, mesmo diante das mudanças na forma como as celebrações são realizadas atualmente. “Não vai se perdendo essa questão do caruru”, afirma.
Esse movimento de continuidade, porém, não depende apenas de uma promessa. Ele também está ligado às histórias que cada família carrega e repete ao longo dos anos. O antropólogo João Caetano observa que, muitas vezes, a resposta para a permanência de um caruru está justamente na memória familiar.
“Às vezes você pergunta por que aquela casa dá caruru todo ano e a resposta vem assim: ‘Ah, porque minha avó fazia’, ‘porque minha mãe começou’, ‘porque meu tio fez uma promessa’. As pessoas se vão, mas a receita fica, a promessa fica, o dia fica marcado. A família sabe que, quando chega setembro, aquela casa vai encher, e vêm os vizinhos e os amigos”, explica.
Para o antropólogo, é justamente nessa repetição compartilhada que o caruru ensina sobre a construção dos vínculos. A tradição se mantém porque as pessoas continuam fazendo juntas: cozinhando, comendo e lembrando. “Nesse caso, até a memória precisa de uma panela”, resume.

O ato de cuidar
A ideia de cuidado também atravessa a história associada a Cosme e Damião. Segundo o sociólogo e historiador Jorge France, os irmãos eram médicos e ficaram conhecidos por exercer a medicina como forma de caridade. A tradição, por isso, também passou a ser associada à cura e à proteção.
Para Jorge, essa relação permanece atual porque a busca pela saúde e pela vida é uma experiência comum a todos. “E cura é um elemento fundamental para todo ser humano. Todo ser humano quer viver, todo ser humano quer saúde, todo ser humano quer felicidade.”
No caruru, esse cuidado ganha outra dimensão. Para o antropólogo João Caetano, a comida presente nos rituais de matriz africana também funciona como uma forma de criar vínculos e cuidar das pessoas e das relações espirituais. No caso do caruru de Cosme e Damião, esse gesto se mistura ainda à memória familiar e às promessas feitas ao longo das gerações.
“Muitas vezes, aquela festa continua acontecendo durante décadas porque alguém fez uma promessa. E aí tem o chamado caruru de promessa. O caruru se faz como um gesto de agradecimento, uma promessa que foi respondida, e assim ele se torna uma tradição familiar”, explica.
Quando a tradição é aceita, mas a religião é rejeitada
A popularização do caruru também revela uma contradição: práticas de origem africana podem ser amplamente incorporadas ao cotidiano baiano sem que isso signifique, necessariamente, respeito às religiões de matriz africana. Para o antropólogo João Caetano, uma pessoa pode consumir caruru e acarajé, participar de festas e incorporar costumes de origem afro-baiana e, ao mesmo tempo, reproduzir preconceitos contra o candomblé e as pessoas de terreiro.
Segundo ele, essa contradição ultrapassa a questão religiosa e também envolve uma dimensão racial. É nesse contexto que se fala em racismo religioso, marcado por uma história de perseguição às tradições religiosas negras. Para João, não há problema em uma prática circular e ganhar novos significados dentro de diferentes famílias e comunidades; o problema está em valorizar a comida, a música e a festa enquanto se rejeitam as pessoas e as religiões responsáveis pela preservação dessas tradições.
“Não há problema nenhum em uma prática circular, mudar de significado, entrar numa família católica, ganhar outros sentidos. Afinal de contas, esses são movimentos próprios da cultura. O problema começa quando se aceita com naturalidade aquilo que veio dessas tradições, a comida, a música, a festa, e se continua tratando com hostilidade as pessoas e as religiões que tiveram um papel fundamental na preservação dessas mesmas práticas. E aí existe uma contradição que vale a pena nomear: o nome disso é racismo.”
Apesar das transformações sociais e religiosas, o historiador Jorge France destaca que as tradições de matriz africana permanecem vivas justamente por sua dimensão comunitária. Segundo ele, a mesa farta, o convite, a comida e a celebração são formas de fortalecer vínculos e manter esses costumes presentes no cotidiano.

SERVIÇO | QUIOSQUE CANTINHO DA PRAÇA
Culinária baiana: às sextas-feiras, com opções de frango, peixe e marisco. A cada 15 dias, o cardápio inclui também uma receita de polvo.
Funcionamento: de segunda a sábado. Aos sábados e domingos, haverá programação especial com culinária baiana e outros pratos.
Eventos: o espaço também realiza eventos e oferece serviço de buffet de churrasco para ocasiões externas.
Endereço: Rua Arnaldo Francelino, 12, Itapuã (Praça Geraldão) — Cantinho da Praça Quiosque.

Brenda Roberta
Editora do bahia.ba, comunicóloga com habilitação em Jornalismo e formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Interiorana de Valença, construiu sua trajetória profissional em Salvador, onde atuou em diferentes frentes da comunicação e do jornalismo. Passou pela assessoria de comunicação do CREMEB e pela assessoria parlamentar de deputado federal, foi repórter do Metro1 e exerceu os cargos de coeditora e editora-chefe do BP Money.
Fonte: Bahia.ba / chef Nasaré Purificação (Foto: Brenda Roberta e Manuela Meneses)