A história da Reforma Sanitária e da fundação do SUS também é uma história de comunicação não tradicional. É essa a síntese de Rogério Lannes Rocha, coordenador e editor-chefe do Programa Radis, um veículo de imprensa pioneiro na construção de pontes entre a Comunicação e Saúde.
Rogério, que trabalha na Revista Radis desde 1986, terá participação em uma mesa do Seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, a ser realizado no Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da UFBA nos dias 28 e 29 de novembro. Organizado em parceria do Outra Saúde, o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) com a universidade baiana, o evento resgata a história de construção do sistema de saúde brasileiro e as disputas que o atravessam hoje, após etapas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Manaus.
Nesta entrevista, Rogério resgata o papel desempenhado pela comunicação nos agitados dias de Constituinte e redemocratização do Brasil. Neste sentido, a Revista Radis, publicação da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz), ocupou um papel fundamental na criação de uma interface entre direito à comunicação e direito à saúde.
A junção é exemplo precioso de que o SUS nunca foi apenas um projeto de prestação de serviços de assistência à saúde. “Comunicação e Saúde é um campo marcado por uma ruptura com o modelo informacional, de transmissão unilateral, centralizada, que orientava as campanhas de governo”, explicou.
O jornalista compartilha o conceito criado ao longo de três décadas pelo campo da Saúde Coletiva, que visa desconstruir hábitos ainda enraizados de comunicação vertical no setor, isto é, um modelo típico do século 20 que precisa ser superado.
Tal visão vai de encontro ao princípio da participação social no SUS. E até hoje encontra forte resistência dentro do poder público. “A maioria dos estados, municípios e do governo central e seus órgãos contrata empresas que jogam o jogo, trabalham e pensam com a cabeça da mídia tradicional. A construção crítica não se torna hegemônica”, observa.
Em sua visão, a pandemia foi um evento histórico que alterou um pouco este cenário. Diante da postura negacionista do governo Bolsonaro, até uma mídia hostil ao SUS e a tudo que seja público alterou sua forma de comunicar. Uma “verdadeira guerra” que pôs contra a parede o conhecimento estabelecido. Mas, como acrescenta, tal momento também atrasou a comunicação dialógica que deve permear relação de governo e atores sociais diversos.
“O retrocesso foi que o ‘estado da arte’ do conhecimento científico teve de ser defendido como uma verdade inquestionável contra uma mentira inaceitável. Mas isso, para a comunicação e saúde, atrapalhou um pouco o processo de pensar comunicação como diálogo, onde o outro tem um conhecimento e, na interlocução, chega-se a um novo pensamento. Ciência não é feita de certezas”, refletiu.
De todo modo, houve um divisor de águas, que se expressa também na produção jornalística hegemônica. “Ficou mais evidente um outro viés, um pouco mais recente: desistir de acabar com o SUS para ocupar o SUS por dentro e assumir o controle, a fim de usufruir recursos públicos. Assim, a mídia voltou à sua essência: estar a serviço do mercado e do capital”.
Para ele, é necessário retomar o espírito contra-hegemônico dos dias da 8a Conferência e que são a alma da interface Comunicação e Saúde. Para Rogério, trata-se de “trabalhar a transformação das formas de representação, coletivos, movimentos não necessariamente estruturados da forma tradicional, outros atores que atuam na saúde e nos direitos sociais, um espaço público, de diálogo. Isso se perdeu nos anos 90, com a ascensão do neoliberalismo”.
Na parte final, o jornalista conta a trajetória do Projeto Radis, os formatos que antecederam a atual Revista e a relação do campo da Saúde Coletiva com o jornalismo.
Leia a entrevista completa.
Em sua visão, quais as interfaces existentes entre comunicação e saúde?
O histórico da relação dos campos da comunicação e saúde, até muito pouco tempo, não questionava a proximidade e a dependência de um em relação ao outro. Em um século atividades de saúde pública no país pareciam coisas completamente desconectadas. Fazer saúde era assistência, planejar, gerir. E até muito pouco tempo atrás, nos anos 80, 90, quando chegava ao final do processo, alguém considerava a necessidade de informar.

A partir dos anos 90, o campo da saúde recebe pessoas da comunicação ou da educação popular, que começam a perceber a insuficiência de simplesmente informar, a partir de um centro, de quem tinha o conhecimento, seja o profissional de saúde, o acadêmico ou o pesquisador. O receptor da informação era só um sujeito passivo. Tem a ver com o modelo de comunicação do início do século XX, ainda hegemônico.
O histórico da saúde é de campanhas normativas, dizer o que fazer. Mesmo nos processos educacionais das profissões da saúde ou da população, era uma maneira muito centralizada em quem supostamente detinha o conhecimento e o direcionava unilateralmente a quem deveria aprender e seguir.
A visão atual é que tanto saúde como comunicação são direitos. Os programas de comunicação e saúde passaram a refletir sobre isso, a fim de estabelecer uma relação dialógica entre interlocutores, aprender um com o outro, seja de forma unipessoal ou coletiva.
Isso reforça a noção de que a reforma sanitária pressupunha outras reformas sociais?
Foi na reforma sanitária que se criou tal compreensão, gestada pelo campo da Saúde Coletiva no final dos anos 70 até meados dos anos 80, auge dessa proposição — o Projeto Radis já tinha uns cinco anos quando aconteceu a famosa 8.a. Conferência Nacional de Saúde (CNS).
O que se propôs como reforma sanitária — saúde como direito, em um conceito ampliado que incluía todas as condições de saúde, de trabalho, ambiente, de bem-viver — obrigaram a reflexão, ou colocaram pelo menos uma tensão, em relação aos processos de informação e de educação sobre aquilo que seria a assistência à saúde, descentralização e aproximação das pessoas. Uma tensão e descoberta de que não bastava, unidirecionalmente, dizer como as coisas devem ser feitas.
Porque à medida que se incorpora a voz do outro, pratica-se a participação social no SUS, na construção de um SUS que ouve e outras vozes entram em campo, não só aquelas autorizadas pela academia, pesquisa, profissionais de saúde. E durante umas duas décadas essa tensão foi um estranhamento. Depois virou um campo de reflexão teórica e também de práticas comunicacionais e de comunicação e saúde, um campo próprio em que essas duas áreas coabitam e se fundem. Um campo marcado por uma ruptura com o modelo informacional, de transmissão unilateral, centralizada, que orientava as campanhas de governo.
No campo da saúde, essa proposta da reforma sanitária se tornou pública e mais contundente na 8.a. CNS, em 1986, ganhou espaço legal e legítimo durante a Constituinte e na Constituição de 1988. Durante muitos anos, o estranhamento era sobre uma forma unilateral, centralizada e da autoridade de fala que simplesmente não funcionava.
A partir dos anos 90 e dos anos 2000, e atualmente — porque não é uma questão cronológica, algo que existia e deixou de existir —, uma nova percepção passa a coexistir com o tradicional e ainda hegemônico: a de que o exercício do direito à saúde necessariamente passa pelo exercício do direito à comunicação. Mas direito à comunicação no sentido de comunicar, não de receber comunicação. É falar, ser ouvido e levado em consideração.
Isso é basicamente o nascedouro do campo Comunicação e Saúde. E é praticado por pessoas que vêm das duas áreas, em um espaço em grande disputa, porque a saúde pública ainda não adotou tal modelo baseado no diálogo.
Nem depois da pandemia e sob a dinâmica das mídias digitais essa forma verticalizada de comunicação sofreu abalos?
Na verdade, o que a comunicação popular, a educação popular e as pessoas que pensam e praticam um modelo mais ideológico de comunicação e saúde vinham construindo passou a orientar muitas iniciativas em todo o país. Tem iniciativas audiovisuais, impressas, nas redes digitais e tudo mais, vindas não só da sociedade, como de instituições públicas também.
Poderíamos chamar de comunicação pública, um conceito diferente de comunicação feita por uma instituição pública, porque ela pode fazer comunicação tradicional. Trata-se de um modelo dialógico em que várias vozes estão presentes e podem ocupar lugares centrais no discurso, e não só periféricos, digamos assim; em que quem detém o poder da fala não é apenas um governo, uma instituição, o profissional de saúde, um professor, em oposição à sociedade, ao aluno, às pessoas assistidas.
O fenômeno da pandemia é um divisor muito grande, porque produz, pela segunda vez num espaço de um século, uma epidemia de grande magnitude. E coincidiu com um momento em que ideológica e politicamente também há disputas, porque não é possível dissociar comunicação de poder. O poder de dizer, de ser ouvido, de fazer acontecer a partir do discurso, e de fazer crer que alguma coisa existe. É a disputa dos discursos, as narrativas. Elas fazem acreditar. E fazer acreditar é fazer com que as pessoas ajam e pratiquem determinadas crenças, valores.
E houve, então, um fenômeno em que essa onda mais conservadora, de um crescimento mundial, forte no Brasil, de um pensamento mais fascista, mais reacionário, não só refratário, mas hostil aos direitos, à igualdade, à equidade. Isso se colocou em choque não só com o que falamos aqui, mas também com as bases do que está em questão quando se fala da saúde e da comunicação. Porque é um esforço de tentar caminhar para um diálogo entre interlocutores, considerando que há valor tanto no discurso científico, técnico, quanto no discurso popular, no conhecimento da sociedade, nas artes tradicionais e no conhecimento técnico-científico.
Essa onda que vem de uns 6 anos, quando houve a pandemia — e aí vamos falar especificamente do Brasil, que tinha no poder esse tipo de coligação conservadora, reacionária, um viés de questionamento do conhecimento científico. E também não só o absoluto questionamento — não é nem um questionamento, é um desprezo por qualquer conhecimento, saber popular —, mas o mesmo fenômeno visto em outros ciclos históricos do fascismo: uma manipulação, uma utilização, um trabalho sobre a ignorância, usando a desinformação, tentando retirar o valor do conhecimento acumulado pela humanidade, dos consensos científicos, da ciência etc.
No momento em que desinformação e fake news fizeram una verdadeira guerra contra as universidades, a pesquisa, o conhecimento já estabelecido nos campos científicos — tanto da comunicação quanto da saúde e tudo mais —, houve uma regressão de um processo de construção dialógica. No momento em que se questiona o campo da saúde ou o campo da comunicação que atua na saúde, se deu um passo atrás para entrar numa guerra comunicacional para lidar com a informação intencionalmente mentirosa. A máquina mobilizada nas redes sociais e pela comunicação digital passou a destruir consensos e a considerar verdade qualquer tipo de fala dita por alguém do seu conhecimento e afeto pessoais, de “confiança”, ou suspeito aquilo que estava estabelecido — porque a suspeição passou a ser uma verdade em si.
Nada verdadeiro está estabelecido e, aí, qualquer coisa pode ser. Vimos no SUS, nas instituições de saúde, mesmo na comunicação empresarial, comercial, um envolvimento, um engajamento, um tipo de disputa de, em tese, verdade versus mentira, fato versus boato ou fake.
O próprio sentido de comunicação passou a ser disputado, de forma amplificada.
A ideia de combater a desinformação — ou seja, produzir contra-informação — nos colocou de volta no modelo que estávamos abandonando, como dito no início. Passou a ser uma guerra de centros que estão informando em nome de um saber, de uma verdade dada. A interlocução perde.
Vou dar um exemplo bem mais concreto para concluir. A pesquisa, a ciência, não é movida por certeza. A ciência não é importante por ter certeza, saber de tudo. O que move a ciência, a pesquisa, é exatamente a dúvida. São as perguntas, os questionamentos que nos levam a buscar respostas que, por algum tempo, se tornam respostas consensuais, compreensões consensuais da realidade. Mas não são estanques, não são estabelecidas, não são verdades que ninguém pode contestar.
Durante a pandemia, o retrocesso foi que o “estado da arte” do conhecimento científico teve de ser defendido como uma verdade inquestionável contra uma mentira inaceitável. Mas isso, para a comunicação e saúde, atrapalhou um pouco o processo de pensar comunicação como diálogo, onde o outro tem um conhecimento e, na interlocução, chega-se a um novo pensamento.
O jornalismo de saúde passou a um novo estágio, teria melhorado, a partir de tal experiência histórica?
A mídia comercial, um certo oligopólio e que de certa forma conduz o imaginário da sociedade, atua nesse conjunto de empresas e de espaços de comunicação associados ao capital, ao mercado. Em oposição, digamos, a uma comunicação mais orgânica do campo da saúde e da saúde pós-reforma sanitária, já associada ao SUS e ao esforço dialógico. Sua característica central é tratar saúde necessariamente como mercadoria e como uma responsabilidade individual.
Se você orienta uma pessoa a cuidar da saúde, significa que também ela é responsável. Portanto, cuidar da saúde está associado a consumir determinados bens e serviços, obviamente privados, que sejam compráveis. Opera-se uma responsabilização individual pela saúde. Esse era o aspecto central da comunicação na grande mídia, e se reproduziu nos novos meios digitais.
Tal noção estava bem consolidada em estudos dos anos 90, 2000 e 2010. Todas as pesquisas, de alguma maneira, apontavam isso. Já o campo da Saúde Coletiva e do SUS tinha uma maior experimentação da escuta (palavra-chave para pensar uma política de comunicação dialógica).
Durante a pandemia, mesmo em 2020, 2021, houve uma pequena aproximação das grandes empresas de comunicação brasileiras da preocupação com a saúde pública, no que diz respeito a todos. O exemplo principal é o da vacinação, mais do que o da atenção, onde não mudou muito.
A fila de leitos na época explica: o SUS era o único espaço onde se dizia que existia a pandemia. Quando iniciou a pandemia, as empresas da área, que são enormes corporações financeiras de saúde, pegavam uma parte do seu dinheiro e compravam leitos, faziam hospitais de campanha, um monte de coisa. Colocavam o dinheiro na mão do governo, que não tinha gente, nem soube aproveitar, para evitar algo que a lei permitia: uma fila única entre setor público e privado. Nesta, os leitos privados seriam requisitados pela autoridade do SUS, para não faltar leito para ninguém. Isso não existiu. Em nenhum momento a mídia comercial falou, em nenhum momento os governantes falaram e, infelizmente, a saúde coletiva também se calou (o Cebes, em algum momento, levantou a questão, o Conselho Nacional de Saúde também, mas ninguém peitou).
Mas do ponto de vista da compreensão, por exemplo, de que a vacina não é só para a pessoa se proteger, é algo que se toma mesmo que você seja uma pessoa com ótima saúde, com uma boa imunidade, para proteger a pessoa idosa com quem mora, a pessoa com comorbidades, proteger o outro que está dentro do transporte coletivo, do seu trabalho, da sua escola. Isso é o cerne da saúde pública: uma vacina não é só para você se proteger, assim como a máscara. Isso é saúde pública e saúde coletiva.
Na pandemia, com o acompanhamento junto às Secretarias de Saúde dos Estados, através do CONASS – porque o governo era negacionista, o Ministério da Saúde era negacionista, optou por deixar a população se contaminar para ver se seria uma forma de redução do vírus —, a mídia teve uma aproximação, parou de falar mal do SUS e assumiu sua importância. Isso foi bom, foi importante no rádio, em TV. Mas, passado aquele momento crítico, onde houve consenso, a mídia voltou a ser o que era, voltou a falar mal do SUS para vender saúde privada.
E ficou mais evidente um outro viés, um pouco mais recente, nascido por volta de 2014, 2015, 2016: desistir de acabar com o SUS para ocupar o SUS por dentro e assumir o controle, a fim de usufruir recursos públicos. Assim, a mídia voltou à sua essência: estar a serviço do mercado e do capital. Portanto, não vejo nenhuma transformação ou melhoria, não.
E os governos, alteraram sua forma tradicional de comunicação?
Do ponto de vista da comunicação feita dentro das estruturas do SUS e governamentais, tem um problema que atrapalha muito, digamos assim, a expansão dessa reflexão criada em três décadas: as pessoas que possuem a visão de comunicação de saúde dialógica e de interlocução são minoria no conjunto de indivíduos que trabalham para as instituições públicas. A maioria dos estados, municípios e do governo central e seus órgãos contrata empresas que jogam o jogo, trabalham e pensam com essa cabeça da mídia tradicional.
A construção crítica não se torna hegemônica nem mesmo dentro do SUS e das secretarias estaduais, municipais e da União. Tal visão é contra-hegemônica dentro do poder público. Está, felizmente, muito capilarizada por comunicadores populares, pela atenção básica. Em várias instâncias do SUS, que são mais próximas da sociedade, dos territórios, das populações, esse tipo de comunicação vai sendo construído, se não por visão teórica, pela prática mesmo, porque se há mais pessoas com poder de fala, que em alguma medida transformam a realidade.
Para concluir, há um lugar contra-hegemônico na comunicação — não estou falando na saúde —, e sempre houve. Por exemplo, na ditadura, anos 70, anos 80, tinha-se comunicação alternativa de jornais e tal. Nasceu muita coisa popular e independente. Porém, o espaço das rádios comunitárias acabou sendo tomado por políticos, partidos, igrejas, e se descaracterizou como um espaço livre.
Mas há no campo digital, das redes sociais, da internet — mesmo que o alcance dependa também de custo — a sobrevivência ou a renovação de uma mídia independente e crítica. E ela tende a trabalhar os temas da saúde de forma mais próxima da visão que expus. Tais iniciativas colocam em prática a comunicação dialógica, obviamente imperfeita, em construção, mas diferente do tradicional.
Sua mesa no Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS – 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 28 e 29 de setembro no ISC/UFBA, falará do papel da comunicação, em variadas dimensões, na Reforma Sanitária, isto é, o processo político que criou o SUS. O que você poderia nos antecipar aqui sobre esta palestra?
Será um diálogo, mais que uma palestra, um formato muito interessante. Eu trabalhava em jornal diário, no Globo especificamente, em duas temporadas de anos diferentes, e também com jornal comunitário e comunicação empresarial, dez anos antes de entrar no Projeto Radis e na Fiocruz. “Eu não vi o dilúvio, mas pisei na lama”. Era um sistema de diversas publicações, sob o mesmo guarda-chuva. Quando iniciei, estávamos publicando os resultados da 8.a Conferência num jornal recém-criado, em função da Reforma Sanitária, o Jornal Proposta, e nas revistas reflexivas, principalmente a Tema. Tinha também a Súmula, que era uma síntese de notícias que saíam na imprensa e dados de epidemiologia, em linguagem mais acessível. Era tudo da Radis.
É difícil compreender hoje em dia: o que se discutiu na 8.a. Conferência não saiu nas redes sociais no dia seguinte, online, ou no Jornal Nacional, ou naquele mês. O Twitter daquela época era um jornal da reforma sanitária, o Proposta, publicado pelo Radis, que a pessoa ia ler 30 dias depois da coisa acontecer. No caso da 8.a. Conferência, um semestre depois. No caso da Constituinte, motivo pelo qual fui à 8.a. CNS, com dois colegas de imprensa, tratava-se de transformar uma publicação educacional e informacional da Escola Nacional de Saúde Pública em uma comunicação para a sociedade, da saúde coletiva para a sociedade, bancada pela Fiocruz.
Eu acompanhava os debates da 8.a. CNS e da Comissão Nacional da Reforma Sanitária, para depois as pessoas lerem e ouvirem nos locais de estudo da Saúde Coletiva, nos movimentos sociais etc. No caso da Constituinte, acompanhei o bastidor mesmo, indo a Brasília, nas comissões, nos corredores, nos auditórios onde se reunia o movimento da reforma sanitária. E aquilo demorava um mês para chegar ao público. Dava tempo ainda de interferir no voto dos parlamentares, pressionar, ir a Brasília, antes que fossem votados aqueles itens dos capítulos da Ordem Social, onde está a Seguridade Social, dentro da qual está a Saúde. E foi no início da Constituinte, porque do meio em diante, se a Ordem Social tivesse sido feita a econômica, não teria os ganhos que teve.
O movimento social era muito forte, tinha muito movimento social periférico, mulheres principalmente. Não era uma coisa de acadêmico. Houve realmente um encontro de um pensamento acadêmico, militante, mas de forte base mesmo, conceitual, com movimentos populares que viam na saúde um dos direitos principais a ser defendido.
E na Constituinte a comunicação se deu dessa maneira. Veio um documento ainda mais próximo do espírito da 8.a. CNS, por meio de uma proposta de emenda popular, e se casaram dentro da Constituinte — aí sim com a iniciativa privada fazendo parte, o que não aconteceu na 8.a. CNS. Depois, acompanhamos, mensalmente, todo o processo de centralização, que começou pelos SUDS (Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde), antecessor do SUS na transição do antigo INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social).
Durante uns três anos, mais ou menos, a descentralização se deu por conta do INAMPS, pela sua desconstrução e colocação dos serviços da saúde nos estados e municípios, secretarias e fundações de saúde da época, financiando e fundindo estruturas.
Tem um capítulo, um momento que é muito interessante desse pré-SUS: a Radis já foi financiada por fontes de ciência e tecnologia, da área da metodologia, vários setores do Estado. E naquele momento, digamos assim, do ápice da reforma sanitária, era financiado pelo INAMPS. A gente chegou a fazer 28 publicações por ano. E aí, quando o Sarney saiu, digamos assim, daquele gesso, que foi a estrutura montada pelo presidente eleito de fato, Tancredo, e começou a substituir os ministros pelos seus próprios aliados, articulou o Centrão para barrar os avanços da Constituinte, tomou realmente as rédeas do próprio governo, mudou a estrutura do Ministério da Previdência e, portanto, do INAMPS.
Ainda neste sentido, é uma história de um jornalismo que participou da própria construção de um sistema de saúde.
Muito tempo atrás, fizemos uma entrevista com o José Gomes Temporão, que um dia virou ministro da Saúde, então professor da ENSP e antigo número dois do INAMPS – o Hesio Cordeiro era o presidente, Temporão o secretário-executivo. Para explicar o que significaria essa unificação do sistema de saúde a partir de baixo, ele falou: “o INAMPS faria tão bem à saúde do país quanto mais rápido fosse extinto”. E aí o presidente do INAMPS ligou para o Sergio Arouca, então presidente da Fiocruz, falando “é absurdo um jornal que a gente financia falar contra o INAMPS”. E basicamente, a resposta foi: “Mas a ideia é essa mesmo”. Ele cortou o nosso financiamento e fomos salvos pelo CONASS, principalmente com recursos da Secretaria Federal de São Paulo.
Dali, atravessando toda a terra, criou-se a ideia de que municipalização era o caminho. Anos depois vivemos de perto a criação da Lei Orgânica da Saúde, na mesma dinâmica. Todas as revistas do Radis trabalharam sempre nessa construção crítica. Não era uma defesa cega do SUS, era atuar para que ele existisse, se construísse, que houvesse, de fato, controle social — isso era muito importante —, e permanecesse público e estatal. Porque também foram muitas as ameaças em todas as direções.
É possível dizer que só este universo jornalístico produzido diretamente pelo campo da Saúde Coletiva entendeu os sentidos da reforma sanitária nas primeiras décadas?
Durante muito tempo, de 1985 a talvez o ano 2000, todas as nossas publicações foram a voz da saúde coletiva, a voz do movimento da reforma sanitária, que era levada aos quatro cantos do país. As vozes eram da academia, dos movimentos sociais, mas centralmente das lideranças da reforma sanitária.
A partir dos anos 2000, mais especificamente 2002 — quando eu já era não só repórter e redator, mas editor-chefe e coordenador do Radis —, tomamos uma decisão de fundir tudo na revista Radis, com características novas, diferentes de cada uma das quatro revistas e boletins anteriores. E a nova linha editorial tinha como noção central deixar de ser uma comunicação do campo da Saúde Coletiva com a sociedade, e absorvê-la como um dos atores sociais de um conjunto enorme, que dialoga não somente com a sociedade civil organizada, entendida como sindicatos, os conselhos, movimentos, associações de moradores etc.
A ideia passou a ser trabalhar junto com a transformação das formas de representação, coletivos, movimentos não necessariamente estruturados da forma tradicional, outros atores que atuam na saúde e nos direitos sociais, um espaço público, de diálogo de todos os atores da sociedade, da saúde, da comunicação. Não é uma coisa dada por vontade; vão mudando os temas, depois os atores que falam, depois o lugar da fala deles. Ouvindo as pessoas, dá para ver o quanto é lenta, portanto, a entrada da voz de alguém e sua chegada ao centro do discurso.
Por exemplo, uma população em situação de rua aparece em um evento. A pessoa que está em situação de rua conta sua história. É importante porque ela não conta em lugar nenhum, pois na hora de discutir as políticas entra a voz do pesquisador, do procurador do Ministério Público, da secretária de Assistência Social, do Ministério, do formulador da política etc. Isso é um processo lento, não só de presença de vozes das mais diversas possíveis, mas de deslocamento delas para a centralidade do discurso. É um processo ainda em construção, e isso é fundamental na reforma sanitária.
Isso se perdeu nos anos 90, com a ascensão do que se chamava de discurso único, do neoliberalismo. Permeou a saúde também. Qualquer projeto passava pelo discurso “em tempos de globalização”… Perdeu-se a ideia da reforma. A reforma não é transformação, não é revolução. É um ótimo elogio, mas na verdade a reforma é muito pouco em relação à estrutura social. Reformas econômicas, agrárias, urbanas ou na saúde são uma melhoria dentro do sistema estabelecido, não um questionamento. Mas mesmo a reforma, que é muito mais do que o SUS, foi deixada para trás nas muitas frentes de confrontação com o estabelecido. No caso atual, temos de novo a ameaça de privatização.
Uma reforma constante da saúde deve se corresponder com uma reforma constante da comunicação. Comunicação e Saúde é o espaço das pessoas que são contra-hegemônicas nos dois campos, com objetivo de trabalhar e transformar o pensamento e as práticas.
Fonte: Outra Saúde / Ilustração: Ile Machado/Revista Radis