Ex-governador do RJ montou supermercado para vender isenções
Por Marcio Chaer – Domingo, 17 de maio de 2026
Flagrado em delito por uma lista de crimes relacionados à apropriação de dinheiro público, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, tem diante de si um novo caminhão de acusações. Ele não só se apropriava do Erário, mas também extorquia empresas enroladas com o fisco.
Esse novo balcão de negócios ganhou forma com a decisão do ministro Alexandre de Moraes que aponta para supostas relações criminosas entre o governo do Rio e a Refit (antiga Refinaria de Manguinhos). A descoberta dessa “poupança” do grupo do ex-governador é uma pá de cal definitiva nas ambições políticas da quadrilha que fez de tudo para manter-se no poder.
O ministro determinou mandados de busca e apreensão contra Cláudio Castro e decretou a prisão preventiva do empresário Ricardo Magro, com inclusão de seu nome na lista de difusão vermelha da Interpol, já que ele reside fora do país.
A exemplo do modelo lavajatista, a PF e MPF enquadram o caso como corrupção do agente privado — e não extorsão do agente público que é quem, de fato, tinha o mando na relação.
Campeão de audiências
Condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral, Castro está inelegível até 2030. Ainda assim, tem dito que concorrerá ao Senado este ano, contando com a mudança de integrantes do TSE. Castro e seu vice, Rodrigo Bacellar, são acusados de criar uma folha de pagamentos secreta com 27 mil cargos temporários na Fundação Ceperj e na UERJ. O esquema foi descoberto quando bancos informaram saques de dinheiro vivo na “boca do caixa”, totalizando R$ 248 milhões.
Cláudio Castro e seu grupo respondem por incontáveis inquéritos e processos. Basicamente, divididos nos seguintes blocos:
1. TSE — Abuso de poder eleitoral (Ceperj/UERJ) Dois Recursos Ordinários Eleitorais (nº 0606570-47.2022.6.19.0000 e 0603507-14.2022.6.19.0000), julgados em conjunto, que resultaram na declaração de inelegibilidade por 8 anos. O TSE também determinou o envio do processo ao Ministério Público Eleitoral para aprofundar investigações em relação à participação de gestores da UERJ. — processo concluído, com condenação.
2. STF/PF — Operação Sem Refino (caso Refit) Inquérito no STF, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, no âmbito da ADPF 635, investigando lavagem de dinheiro, corrupção e fraude fiscal ligados à Refinaria de Manguinhos. Castro foi alvo de busca e apreensão em 15/05/2026 — processo em fase de investigação.
3. STF — Rodrigo Bacellar e conexões Bacellar já estava afastado da presidência da Alerj por outro processo que tramita no STF, e Castro aparece como figura associada nesse contexto.
4. Ministério Público Eleitoral — desdobramentos da Ceperj O TSE determinou o envio dos autos ao MP Eleitoral para aprofundar as investigações sobre gestores da UERJ nas condutas irregulares, o que pode gerar novas ações.
Além do TSE, Castro terá pela frente o paredão do Supremo Tribunal Federal, de onde dificilmente sairá ileso.
(com informações obtidas nos portais do TSE, MPF e ConJur.)
Capivara tenebrosa
Apesar da capivara tenebrosa, ele e seu grupo investem no grau de desinformação do eleitor que tem dificuldade para entender o que acontece. No lote de crimes da vez, Castro não teve prisão preventiva decretada nem foi afastado de função pública, já que renunciou ao governo em março. Foram bloqueados aproximadamente R$ 52 bilhões em ativos financeiros ligados à Refit, além da suspensão de atividades econômicas do grupo, segundo noticiou o Correio Braziliense.
Vários agentes públicos de diferentes esferas participaram do esquema. A decisão aponta que Castro teria encomendado ao procurador Renan Saad uma manifestação judicial pedindo a volta das operações da Refit após interdição.
O argumento usado era de que a paralisação comprometia a arrecadação do estado em regime de recuperação fiscal. Saad foi afastado de suas funções por determinação do ministro Alexandre de Moraes. O então presidente do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea), Renato Jordão Bussiere, reafirmou posição técnica favorável aos interesses da Refit e chegou a determinar o cancelamento da licença de uma empresa concorrente, a Tobras Distribuidora de Combustíveis.
Rachadinhas para todos
O desembargador do TJ-RJ Guaraci Campos Vianna, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, teria sido “cooptado” pelo esquema. Já estava afastado das funções por ordem do corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell. A PF chama a atenção para o “beneplácito” concedido pelo desembargador para suspender por 120 dias a cobrança das obrigações previstas no plano de recuperação judicial da empresa, incluindo o parcelamento de dívidas com o Estado do Rio de Janeiro.
A decisão aponta indícios de participação de dois escrivães da Polícia Federal lotados na Delegacia de Nova Iguaçu — Márcio Cordeiro Gonçalves e Márcio Pereira Pinto — na estrutura criminosa. A PF identificou que um telefone clandestino usado para contatos com o esquema foi acessado por meio de IP associado à rede interna da própria Polícia Federal, vinculado ao login de Márcio Cordeiro Gonçalves. Ambos foram afastados de suas funções por determinação de Moraes.
A decisão descreve ainda que nomes de agentes públicos eram salvos na agenda do lobista Álvaro Barcha Cardoso acompanhados da palavra “Pix”, o que a PF aponta como indício de possível fluxo de dinheiro entre os interlocutores.
No total, foram cumpridas sete medidas de afastamento de função pública, além de 17 mandados de busca e apreensão nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e no Distrito Federal. O quadro revela um esquema que, segundo a decisão de Moraes, contaminou simultaneamente o Executivo estadual, o Judiciário fluminense e até a própria Polícia Federal (texto produzido com subsídios da ferramenta generativa Claude).
Com o avanço das investigações, o óbvio é que se descubra seu corolário previsível: a Refit não foi a única freguesa da lojinha do seo Cláudio — já que na fila há pelo menos 2 milhões de devedores de impostos no Rio de Janeiro. Alvos frágeis e predispostos a “rachadinhas” que só os agentes públicos podem oferecer.
Fonte: Conjur / Foto: IA ( Ilustracao)