Por Eduardo Goulart – Domingo, 17 de maio de 2026
Após revelarmos o acordo de R$ 134 milhões para o filme “Dark Horse”, Flávio Bolsonaro tenta jogar cortina de fumaça e blogs ligados ao PL atacam o Intercept.
Ontem, 16 de maio, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro pegou o microfone, por volta das 21h, em um palanque na cidade de Campinas. Sua missão: desferir uma série de ataques infundados contra o Intercept Brasil, tentando desesperadamente vincular nosso jornalismo ao crime organizado.
O ataque foi prontamente repudiado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, em uma nota. “Essa não é a primeira vez na semana que o senador tenta desqualificar o trabalho do site”, escreveu a entidade. E Flávio não está agindo sozinho.
No mesmo dia, Allan dos Santos, o aliado dos Bolsonaros, publicou a mesmíssima mentira que já circulou em veículos bolsonaristas em 2023 e conecta com nossas últimas reportagens.
A sincronia não é coincidência, é método. E expõe o desespero de uma operação-abafa que começou a deixar as digitais pelo caminho.
O motivo é evidente. Nesta semana, revelamos com farta documentação – contratos, áudios e mensagens – que Flávio negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme “Dark Horse”, a cinebiografia sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mostramos também que Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre a gestão desse dinheiro. Encurralados por provas irrefutáveis, os envolvidos decidiram nos atacar.
Antes de publicar essas revelações, sabíamos que o contra-ataque chegaria em breve. Quem nos acompanha desde a Vaza Jato deve se lembrar do “Pavão Misterioso”, um perfil apócrifo articulado pelo “Gabinete do Ódio”, ligada à Abin Paralela, que fabricou inúmeras mentiras contra nosso jornalismo e nossos profissionais, inclusive com tentativas de nos associar ao crime organizado.
As táticas do clã Bolsonaro não mudaram desde então: mentir, distorcer, confundir, atacar, desviar a atenção.
E embora já não tenham os recursos da Presidência à sua disposição, o moderno “Gabinete do Ódio” está espalhado por diversos canais de mídia digital controlados por aliados de Bolsonaro.
Como podemos ter certeza disso? Enquanto eles só sabem atacar, nós sabemos investigar.
Vamos a eles: Allan dos Santos é peça central do aparato de milícias digitais do bolsonarismo e íntimo de Eduardo e Carlos Bolsonaro. O homem que nos acusou de ter ligação com o crime é, na verdade, um foragido da Justiça que não consegue pisar em terra brasileira. No seu novo lar nos Estados Unidos, ele chamou Eduardo para um live no seu canal na sexta-feira, 15, para defender seus aliados.
Na quinta-feira passada, 14, o produtor do filme “Dark Horse”, deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, compartilhou uma outra mentira no Instagram para tentar nos descredibilizar. Ele replicou uma manchete que alegou falsamente que o Intercept teria recuado e reconhecido falta de evidências do valor total do filme de Bolsonaro. Quem produziu o conteúdo compartilhado pelo parlamentar foi a página diario360 – cujo site está registrado em nome de Fagner Leandro de Lima.
Lima é secretário parlamentar do deputado federal André Fernandes, do PL do Ceará – o partido do clã Bolsonaro –, e recebe mais de R$ 25 mil por mês. Além disso, o assessor é tesoureiro do partido de Flávio e Frias no Ceará.
Apesar do esforço em construir uma narrativa criminosa contra o Intercept, um dia depois, Flávio Bolsonaro desmentiu Frias e diario360. Ele não disse à imprensa que o valor em questão era menor do que havíamos divulgado – na verdade, era quase três vezes maior: 70 milhões de dólares.
Este é apenas um dos muitos exemplos, esta semana, de como o núcleo duro do bolsonarismo é constitucionalmente incapaz de coordenar suas narrativas mentirosas.
Como revelado pelo Intercept, Frias operou como peça-chave na articulação entre a família Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”. Ele foi produtor-executivo do longa, juntamente com Eduardo Bolsonaro, atuou nos bastidores para viabilizar o projeto e chegou a organizar uma exibição privada da obra para Jair Bolsonaro na mansão do dono do Banco Master.
Os rastros da milícia digital que apoia Frias e a família Bolsonaro não param por aí. Também na quinta-feira, Frias compartilhou um outro post tentando descredibilizar o nosso trabalho, que alega falsamente que o “Intercept admite não ter provas do pagamento”.
O conteúdo original foi produzido pela página Hora Brasília – cujo site é registrado em nome da Target DF Journal Comunicação LTDA. Essa mesma empresa, sediada em Brasília, foi fornecedora de campanha de dois políticos do PL de Atibaia, no interior de São Paulo. A empresa pertence a Hugo Alves dos Santos – que, em junho de 2020, estava junto ao comunicador bolsonarista Oswaldo Eustáquio quando este foi preso.
A Target DF recebeu R$ 30 mil reais do candidato a vereador Derek Bonjardim, eleito, e R$ 25 mil do também candidato a vereador Juninho do Hot Dog. Ambos concorreram na eleição de 2024.
O Intercept entrou em contato por e-mail e WhatsApp com Flávio Bolsonaro, Mario Frias, André Fernandes, Fagner Leandro de Lima e Hugo Alves dos Santos, mas não recebeu respostas até a publicação.
Esta é apenas uma amostra da ampla rede de desinformação maliciosa que a família Bolsonaro tem à sua disposição e que propaga, dia após dia, uma realidade paralela para seus seguidores.
Esperamos que eles lancem novas calúnias e difamações contra nós todos os dias, porque nossas reportagens os deixaram em pânico total. Continuaremos a aplicar nossos mesmos padrões de rigor e ética ao fazer reportagens de interesse público.
Pois, duas coisas são claras:
1. Nós sabemos investigar e temos rigor jornalístico para seguir o dinheiro, apresentando provas documentais.
2. O Intercept está sob ataque por fazer um trabalho bem-feito.
Esses ataques são um sinal de que precisamos continuar com essa cobertura. Certamente há muito mais a ser revelado. Mas, para isso, precisamos da sua ajuda.
O Intercept é financiado quase inteiramente por pequenas doações mensais de seus leitores. Não contamos com banqueiros vigaristas, fundos partidários ou subsídios do governo para nos apoiar — nem queremos isso.
Fonte: The Intercept Brasil