A Medicina não nos permite parar. Talvez essa seja uma das características mais desafiadoras – e, ao mesmo tempo, mais fascinantes – da profissão que escolhi. Quando acreditamos que dominamos determinado conhecimento, novas pesquisas surgem, novos tratamentos são desenvolvidos, tecnologias transformam a prática clínica e aquilo que aprendemos precisa ser constantemente revisitado.
É nesse contexto que recebo a missão de ser Embaixadora Estadual Jovem da Sociedade Brasileira de Cardiologia no Rio de Janeiro (SOCERJ). Aos 37 anos, assumir essa função representa, para mim, mais do que uma conquista profissional. É uma responsabilidade: a de representar uma geração de cardiologistas que está construindo sua trajetória em uma especialidade que avança em ritmo acelerado.
A Cardiologia de hoje não é a mesma que encontrei no início da minha formação. E certamente será diferente daquela que praticaremos daqui a alguns anos. Novos medicamentos, métodos diagnósticos, dispositivos, estratégias de prevenção e ferramentas digitais vêm modificando a maneira como compreendemos e tratamos as doenças cardiovasculares. A inteligência artificial, por exemplo, já começou a abrir discussões importantes sobre como a tecnologia poderá auxiliar médicos, ampliar possibilidades diagnósticas e transformar processos de trabalho.
Diante dessa velocidade, existe um desafio que considero fundamental: como acompanhar a evolução da especialidade sem perder de vista aquilo que realmente importa?
Para mim, a resposta passa necessariamente pela educação continuada. Ser médico é aceitar que a formação nunca termina. O diploma marca o início de uma trajetória de aprendizado, e não o seu ponto final. Buscar conhecimento, questionar condutas, trocar experiências e acompanhar a produção científica são atitudes que fazem parte da responsabilidade de cuidar de pessoas.
Essa percepção se tornou ainda mais presente na minha trajetória com a Cardio-Oncologia. A evolução do tratamento do câncer trouxe ganhos extraordinários para os pacientes e aumentou a sobrevida em diferentes tipos de tumores. Ao mesmo tempo, tornou mais evidente a necessidade de compreender a relação entre determinadas terapias oncológicas e o sistema cardiovascular.
Hoje, cuidar de um paciente com câncer pode significar também olhar para o coração antes, durante e depois do tratamento. Essa integração entre especialidades representa uma das faces de uma Medicina que deixou de trabalhar em compartimentos isolados e passou a exigir cada vez mais diálogo entre diferentes áreas.
Mas o avanço da Cardiologia não está apenas nos grandes centros de pesquisa ou nas tecnologias mais sofisticadas. Ele também passa por algo aparentemente simples, mas ainda extremamente necessário: prevenção.
Hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo, tabagismo, alimentação inadequada e histórico familiar continuam exigindo atenção. Em uma especialidade que acompanha doenças muitas vezes silenciosas, esperar pelo aparecimento de sintomas para cuidar da saúde cardiovascular pode significar perder uma oportunidade importante de prevenção.
É justamente por isso que acredito que a nova geração de cardiologistas precisa estar preparada para atuar em duas frentes ao mesmo tempo: acompanhar o que existe de mais moderno na especialidade e, simultaneamente, valorizar aquilo que permanece essencial – prevenção, escuta, vínculo e cuidado individualizado.
Ser Embaixadora Estadual Jovem da SBC representa, portanto, uma oportunidade de contribuir para essa aproximação. Os profissionais mais jovens vivem uma realidade diferente daquela de gerações anteriores. Temos acesso a uma quantidade enorme de informação, mas justamente por isso precisamos desenvolver a capacidade de identificar conhecimento de qualidade, interpretar evidências e transformar informação em decisões responsáveis.
Também precisamos conversar sobre os desafios da própria carreira médica. A velocidade da Medicina pode trazer a sensação de que nunca sabemos o suficiente. A cobrança por atualização é permanente, enquanto a rotina profissional exige tempo, disponibilidade e decisões muitas vezes complexas. Nesse cenário, construir redes de troca entre profissionais torna-se ainda mais importante.
Acredito que uma sociedade médica tem um papel fundamental nesse processo. Mais do que produzir conhecimento, é preciso criar espaços para que ele circule, seja discutido e chegue à prática clínica. Aproximar os jovens médicos desses espaços é uma forma de fortalecer a especialidade e preparar seus profissionais para o futuro.
Assumir essa função, portanto, também significa estar aberta ao aprendizado. Não vejo a posição de Embaixadora como um lugar de chegada, mas como uma oportunidade de continuar aprendendo, ouvindo e compartilhando experiências. Representar uma nova geração significa reconhecer que ainda temos muito a aprender e que o conhecimento médico é construído coletivamente.
A Cardiologia continuará avançando. Novas tecnologias surgirão, tratamentos serão aprimorados e provavelmente veremos mudanças que hoje ainda não conseguimos antecipar. O nosso desafio será acompanhar esse movimento sem permitir que a inovação nos afaste do propósito central da Medicina: cuidar de pessoas.
É com essa perspectiva que assumo a missão de ser Embaixadora Estadual Jovem da Sociedade Brasileira de Cardiologia no Rio de Janeiro. Com entusiasmo pelo que a Cardiologia já conquistou, curiosidade diante do que ainda está por vir e, principalmente, com a consciência de que uma Medicina que evolui precisa também de profissionais dispostos a evoluir com ela.
*Bruna de Mello Miliosse é cardiologista e Embaixadora Estadual Jovem da Sociedade Brasileira de Cardiologia no Rio de Janeiro.