Por Lorena Scavone GironBoletim Regional do Banco Central mostra um Brasil em duas velocidades: regiões puxadas pela agropecuária avançam, enquanto áreas mais dependentes de comércio, indústria e crédito perdem fôlego
A economia brasileira entrou em 2025 com um sinal claro de perda de tração. O consumo das famílias, que havia sustentado parte importante da atividade nos últimos anos, começou a mostrar sinais de cansaço, enquanto setores mais sensíveis aos juros, como comércio e indústria, cresceram em ritmo menor. Nesse cenário, o agronegócio voltou a exercer papel decisivo para evitar uma desaceleração mais forte do Produto Interno Bruto (PIB).
O diagnóstico aparece no Boletim Regional divulgado nesta quinta-feira (21) pelo Banco Central. O relatório mostra que o Brasil e quatro das cinco regiões do país cresceram menos em 2025 do que no ano anterior, refletindo os efeitos de uma demanda doméstica mais fraca, do crédito mais caro e da perda de impulso em atividades ligadas ao consumo.
A exceção foi o Centro-Oeste, única região a acelerar no período, impulsionada pelo desempenho da agropecuária. O Sul também se beneficiou da recuperação do setor agrícola e avançou acima da média nacional. Já o Norte cresceu mais do que o país, apoiado não apenas pelo campo, mas também pela indústria de transformação e pelo comércio.
O retrato é de uma economia cada vez mais dependente do setor agropecuário e das regiões com maior ligação ao setor externo. Quando o campo vai bem, parte relevante da atividade se sustenta. Mas o mesmo relatório expõe uma fragilidade: nas áreas em que o consumo urbano tem peso maior, o ritmo foi bem mais fraco.
Sudeste e Nordeste registraram os menores crescimentos entre as regiões. Segundo o Banco Central, o desempenho dessas áreas foi prejudicado justamente pela desaceleração de setores como comércio e indústria. O dado é relevante porque o Sudeste concentra boa parte da produção industrial, do mercado consumidor e dos serviços do país. Quando essa região perde força, o sinal para a economia nacional fica menos confortável.
O relatório também reforça a diferença entre crescimento puxado por oferta e crescimento puxado por demanda. A agropecuária ajudou a sustentar o PIB, mas o consumo mais fraco mostra que a expansão não está distribuída de forma homogênea. Em outras palavras: o campo entrega resultado, mas não resolve sozinho a perda de fôlego da economia urbana.
O mercado de trabalho, por enquanto, segue como ponto de resistência. Todas as regiões registraram as menores taxas de desocupação desde o início da série histórica, em 2012. A população ocupada cresceu, a informalidade recuou e a participação de trabalhadores com carteira assinada atingiu máximas históricas. A renda média também avançou em termos reais na comparação com 2024.
Mesmo assim, o quadro não é livre de riscos. O crédito bancário desacelerou em todas as regiões, especialmente no Centro-Oeste, Sul e Norte, onde o crédito rural tem maior peso. A perda de força ocorreu principalmente nas linhas com recursos livres e nas modalidades voltadas às pessoas físicas. Ao mesmo tempo, a inadimplência aumentou em todo o país, com destaque para operações ligadas ao agronegócio.
A combinação é delicada. De um lado, o emprego e a renda ainda ajudam a sustentar parte da demanda. De outro, juros elevados, crédito mais seletivo e aumento dos atrasos limitam o consumo e os investimentos. O resultado é uma economia que cresce, mas com bases desiguais.
O Boletim Regional do BC deixa uma mensagem pouco confortável: o agronegócio segue sendo um motor importante da atividade, mas o enfraquecimento do consumo e da indústria reduz a qualidade do crescimento. Para o PIB ganhar consistência, não basta o campo compensar a fraqueza dos demais setores. Será preciso recuperar a demanda interna sem reacender pressões inflacionárias, um equilíbrio que continua sendo o grande desafio da política econômica.
Fonte: Money Report