Instituto contratado com verba de emenda deveria fazer letramento digital de adultos e adolescentes
11/09/2026
Por Bruno Ribeiro
(Folhapress) – Uma das empresas apontadas pela Polícia Federal como elo na suposta triangulação de recursos públicos que chegaram à produtora Go Up Entertainment, do filme “Dark Horse”, é uma consultoria registrada em endereço do bairro Vila Hulda, em Guarulhos, na Grande São Paulo, onde funciona na verdade uma loja de vestidos de noivas.
Nos cadastros da Receita Federal e da Junta Comercial de São Paulo, o Instituto Super Poder Educacional, empresa registrada para exercer atividades como treinamento profissional, edição de livros e comércio atacadista de material de escritório, existe desde 2023 em uma sala comercial da avenida Doutor Timóteo Penteado, no centro do bairro.
No local, contudo, o que há é uma loja de vestidos noivas e roupas para festas, que funciona há pelo menos três anos e meio no endereço, segundo um atendente disse à reportagem. Ele afirmou que o estabelecimento não tem nenhuma ligação com a empresa alvo das investigações.
Segundo a decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, que autorizou a operação da PF realizada na manhã desta quinta-feira (10) para apurar repasses para o filme, a investigação mira um esquema que teria recebido tanto dinheiro público federal, viabilizado por meio de emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP), quanto municipal, da Prefeitura de São Paulo.
Os repasses de ambas as origens foram para a execução de contratos com a organização ICB (Instituto Conhecer Brasil), que pertence à empresária Karina Ferreira Gama, dona da produtora Go Up Entertainment.
No caso das emendas, Frias destinou R$ 1 milhão a atividades do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação de “letramento digital e empreendedorismo para capacitar adultos e adolescentes”. No caso da prefeitura, o ICB recebeu R$ 108 milhões para oferecer pontos de wi-fi em bairros da periferia.
No convênio federal, a investigação apontou que o ICB subcontratou duas empresas: a Dinâmica Editora e Distribuidora, cuja sede fica em Rio Claro (a 363 km de São Paulo), e a Super Poder Educacional, registrada no endereço da loja de noivas. As duas receberam R$ 700 mil ao todo entre fevereiro e março do ano passado.
A Dinâmica, ainda segundo a investigação, pertence a Dayvid Moreira Medeiros, empresário que responde a processo sob suspeita de fraude em licitação na Paraíba. Já a Super Poder Educacional tem como sócia a empresária Pamella Cristina Dias. A polícia afirma que os dois trabalham juntos em outro negócio: Dias é coordenadora editorial da empresa HD Cultural, que tem Medeiros como sócio.
Para a polícia, segundo a decisão publicada pelo STF, os recursos que as empresas de Dias e Medeiros receberam foram transferidos à Go Up por meio de outra companhia, a NTT Brasil, que pertence a um irmão de Dias, Heric Fabiano Dias.
Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, a NTT Brasil transferiu R$ 750 mil para a Go Up. A polícia apura se o recurso é o mesmo recebido entre fevereiro e março. Os repasses à produtora ocorreram enquanto o “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL), era filmado, em São Paulo.
A reportagem tentou contato por telefone com Dias e Moreira, mas nenhum deles atendeu as ligações.
Ainda segundo a decisão de Dino, no mesmo período, o próprio Frias transferiu R$ 645 mil para a conta da produtora, “colocando em questão o lastro financeiro para dar suporte às transferências feitas para a pessoa jurídica de Karina Gama no curto espaço de menos de 60 dias”, segundo a investigação. A polícia aponta incompatibilidade patrimonial com a renda do deputado, de R$ 44 mil.
Karina negou irregularidades à coluna Mônica Bergamo, e Frias chamou a ação da PF de “cortina de fumaça”. Procurados pela reportagem, não responderam.
Após visitar a loja de noivas, a reportagem procurou a sócia da empresa em outro endereço atribuído à Super Poder Educacional, que consta no site de outro projeto social da empresa, no bairro Vila Rosália (a dez minutos de carro).
Pelo interfone, uma pessoa respondeu que não havia nenhuma Pamella no local. Um homem, que chegava de carro e que se apresentou como irmão da empresária, disse que o imóvel era da mãe deles. Afirmou que Dias não falaria sobre o assunto, mas passou o contato dela. A empresária não atendeu.
O filme “Dark Horse” é baseado no atentado sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018.
Áudios divulgados pelo site The Intercept mostraram que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, pediu recursos a Daniel Vorcaro, do Banco Master, supostamente para o financiamento da obra. A operação desta quinta ocorreu no âmbito de um inquérito que apura se o filme também recebeu dinheiro desviado de emendas parlamentares.
A PF apura, em outro inquérito, se parte desse dinheiro foi enviada aos Estados Unidos para custear despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que busca o apoio do governo de Donald Trump contra a eleição de Lula (PT).
Fonte e foto: ICL Noticias /