A expansão da medicina nuclear no Brasil enfrenta um paradoxo: embora avance rapidamente em áreas como oncologia e cardiologia, a maior parte da população ainda permanece distante dessa técnica, em um contexto de forte desigualdade regional. Atualmente, a distribuição continua concentrada nas regiões Sul e Sudeste; no Norte, está disponível apenas cerca de 5% da infraestrutura instalada da especialidade. Para superar essa barreira e ampliar o acesso aos diagnósticos por imagem molecular, especialistas destacam a importância da inovação e da abertura do país a radiofármacos já consolidados na Europa e nos Estados Unidos.
“Grande parte do país ainda não tem acesso à medicina nuclear, e a distribuição dos equipamentos de PET-CT, tecnologia que viabiliza a imagem molecular, é muito desigual. Ampliar o acesso a essas ferramentas avançadas de diagnóstico é essencial, pois elas permitem detectar doenças mais precocemente, apoiar decisões terapêuticas mais personalizadas e produzir um impacto relevante nos desfechos dos pacientes e na eficiência do sistema de saúde”, afirma o professor Giovanni Guido Cerri, presidente dos Conselhos dos Institutos de Radiologia (InRad) e de Inovação (InovaHC) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).
“O Brasil tem uma oportunidade significativa de avançar na adoção da imagem molecular ao estimular a inovação, ampliar a infraestrutura e fortalecer a colaboração em todo o setor de saúde. À medida que novas tecnologias e novos radiofármacos continuam surgindo, ampliar o acesso à medicina nuclear será fundamental para garantir que mais pacientes possam se beneficiar da próxima geração de diagnósticos de precisão e cuidados de saúde.”
Da imagem anatômica à medicina de precisão
Nas últimas décadas, a medicina nuclear passou por uma transformação profunda. Enquanto os exames antes se concentravam em alterações anatômicas ou funcionais mais amplas, hoje a imagem consegue identificar processos específicos de sinalização celular associados à progressão tumoral.
Com base nesse avanço, a medicina de precisão incorporou abordagens teranósticas, que combinam diagnóstico e terapia de forma integrada no tratamento dos pacientes. Para o professor Carlos Buchpiguel, do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o impacto clínico dessa evolução já é evidente em diversas áreas da oncologia.
“Estamos vivendo uma fase extraordinária no campo da imagem molecular. Hoje, conseguimos identificar processos de sinalização das células tumorais com enorme sensibilidade e, ao mesmo tempo, utilizar mecanismos teranósticos para tratar essas mesmas células, otimizando os resultados clínicos”, afirma. Segundo o especialista, estudos clínicos recentes já demonstram ganhos significativos em áreas como o câncer de próstata, com exames baseados em PSMA apresentando maior eficiência diagnóstica no estadiamento de pacientes de alto risco em comparação com os métodos convencionais.
Na cardiologia, a imagem molecular também está ampliando as possibilidades clínicas em casos complexos relacionados à doença microvascular e à inflamação. O professor Cesar Higa Nomura, diretor do Departamento de Diagnóstico por Imagem do Hospital Sírio-Libanês e presidente da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed), destaca o papel da quantificação da perfusão miocárdica com Rubídio-82 na compreensão de alterações que muitas vezes não aparecem nos exames anatômicos tradicionais.
“A quantificação mudou a forma como muitos casos são interpretados. Há pacientes sem grandes alterações anatômicas aparentes, mas com reserva de fluxo comprometida e alto risco cardiovascular. A imagem híbrida e molecular amplia nossa capacidade de compreender esses mecanismos”, afirma.
Infraestrutura, financiamento e acesso
Apesar do progresso científico, especialistas apontam que a expansão da medicina nuclear no Brasil ainda depende da superação de gargalos históricos relacionados à produção e à distribuição de radiofármacos, à demora regulatória e à baixa incorporação dessas tecnologias ao sistema público de saúde.
“O Brasil precisa tratar a medicina nuclear como uma política pública. Esta não é apenas uma discussão tecnológica, mas também um debate sobre acesso e desigualdade. Esse ponto é fundamental para tratar doenças como o câncer de maneira mais eficaz em toda a população”, afirma o professor Celso Dario Ramos, da área de Medicina Nuclear da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Para Tommaso Montemurno, gerente-geral da Bracco Imaging para a América Latina, a líder global em diagnóstico por imagem desempenha um papel central nessa jornada.
“Entendemos que o futuro do diagnóstico será cada vez mais personalizado e preciso, e a inovação é decisiva nesse sentido, apoiada por parcerias com a indústria que contribuam para fortalecer a produção, a distribuição e a disponibilidade de soluções avançadas de imagem molecular, permitindo um acesso mais amplo dos pacientes a tecnologias inovadoras de diagnóstico.”
Colaborações recentes entre desenvolvedores internacionais de radiofármacos e parceiros locais de fabricação também devem contribuir para ampliar o acesso a agentes avançados de imagem molecular no Brasil.
Um exemplo é o acordo estratégico entre a Blue Earth Diagnostics, subsidiária do Grupo Bracco especializada em radiofármacos, e a R2PHARMA, que busca apoiar a futura disponibilidade de radiotraçadores inovadores no mercado brasileiro.
Rafael Ribeiro Madke, vice-presidente de Medicina Nuclear e Inovação da R2PHARMA, ressalta que o futuro da medicina molecular depende não apenas da inovação, mas também da capacidade de disponibilizá-la de maneira eficaz.
“À medida que novos radiofármacos e tecnologias de imagem continuam surgindo, garantir capacidades robustas de produção e redes logísticas eficientes será fundamental para manter a qualidade, ampliar o alcance e proporcionar acesso no momento adequado aos pacientes em todo o Brasil. O fortalecimento dessa infraestrutura é um passo essencial para concretizar plenamente o potencial da medicina de precisão”, afirma.
A percepção central dos especialistas é que o Brasil se encontra em um momento decisivo para a medicina nuclear. Embora ainda existam desafios significativos relacionados à infraestrutura, ao reembolso e ao acesso geográfico, os avanços da medicina de precisão, a evolução regulatória e a colaboração entre instituições de saúde, indústria e formuladores de políticas públicas estão criando novas oportunidades para ampliar a imagem molecular e melhorar o atendimento aos pacientes em todo o país.
Em última análise, ampliar o acesso à imagem molecular não significa apenas introduzir novas tecnologias, mas também viabilizar diagnósticos mais precoces, decisões terapêuticas mais bem fundamentadas e melhores resultados para pacientes de todas as regiões do Brasil.
Com Informações do Site Medicina SA