Por Angela Monize – Segunda, 8 de junho de 2026
só
sei
correr
e
voo em nuvens como céus.
só
sei
dizer
tudo de mim é você.
nego meu oriundo desejo e reinvento fotos de um único momento. pois outros não haverão.
no fim, me sinto longe. à distância do dilúvio, crescente num olhar felino, este que diante do amor se esquiva, contando os segundos para soltá-lo.
mas… se um dia quiser ver o índigo, observe os olhos do felino em um sol vespertino.
encoste seus sentidos no ventre do bicho e se esqueça do mundo hostil.
escute a lentidão morna dos músculos sob a pele.
o movimento quase imperceptível das costelas abrindo.
e veja o universo inteiro diante dos seus olhos. as árvores inclinam as sombras e a tarde amadurece nos telhados.
algumas nuvens esquecem de partir. e, talvez, aquele pequeno soberano permaneça. soberano de coisas que não possuem nome.
habitante de territórios onde a linguagem não alcança. calçado da sabedoria de quem nunca aprendeu a mentir.
uma tranquilidade feroz.
delicadeza armada…
o ouro cansado do sol repousa sobre suas pupilas e dentro delas passam florestas, luas e até tempestades.
e o mundo continuará ruindo. as portas vão bater, cidades vão crescer, corpos irão se despedir…
mas ali, entre o ventre quente e os olhos de âmbar, a existência encontra um lugar para repousar por alguns instantes. enquanto o sol termina de esquecer o próprio nome.
Foto Angela Monize