O desafio não é produzir, é defender o que o Brasil produz

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A competitividade da suinocultura brasileira costuma ser explicada por fatores conhecidos: abundância de grãos, disponibilidade de água, clima favorável e um sistema produtivo tecnificado. Embora todos esses elementos sejam determinantes, eles não são suficientes para explicar por que o Brasil se consolidou entre os principais produtores e exportadores mundiais de proteína animal.

Em um mundo marcado por conflitos geopolíticos, barreiras comerciais, mudanças no consumo, crises sanitárias e crescente disputa por mercados, o maior patrimônio do setor talvez seja outro: a capacidade de produzir com regularidade, sanidade e credibilidade.

Sula Leite, gerente técnica da área internacional da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), durante a palestra no 4º Congresso de Suinocultores do Paraná: “Somos muito bons em produzir suínos, mas ainda somos muito ruins em defender a imagem daquilo que produzimos”

Foi essa a principal reflexão apresentada por Sula Leite, gerente técnica da área internacional da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), durante a palestra Mercado da Carne Suína: oportunidades para o segundo semestre de 2026, realizada no 4º Congresso de Suinocultores do Paraná. Mais do que projetar números ou tendências de curto prazo, a especialista propôs uma leitura estrutural da posição brasileira no mercado internacional e defendeu que o país precisa aprender a valorizar os diferenciais que construiu ao longo de décadas.

“Precisamos lembrar constantemente quem nós somos dentro da produção mundial de proteína animal. Muitas vezes sofremos da chamada síndrome do vira-lata e deixamos de reconhecer a qualidade do que produzimos. O Brasil construiu uma produção diferenciada, competitiva e respeitada internacionalmente. Quem visita granjas e frigoríficos em outros países percebe que não perdemos para ninguém. Somos muito bons em produzir suínos, mas ainda somos muito ruins em defender a imagem daquilo que produzimos”, sustentou.

Segundo ela, essa dificuldade de comunicar os próprios diferenciais acaba abrindo espaço para interpretações equivocadas e, em alguns casos, favorece o surgimento de barreiras que extrapolam o campo sanitário.

“Nem toda barreira apresentada como sanitária é, de fato, sanitária. Em muitos casos ela atende interesses comerciais. O problema é quando nós mesmos deixamos espaço para que essas restrições sejam criadas. Por isso precisamos defender nossa produção, nosso sistema e tudo aquilo que nos tornou referência internacional.”

Patrimônio construído dentro da granja

Ao analisar os fatores que sustentam a competitividade brasileira, Sula chamou atenção para um aspecto que, segundo ela, muitas vezes passa despercebido justamente por fazer parte da rotina das granjas: a sanidade animal. Na avaliação da especialista, o rigor dos protocolos de biosseguridade adotados pela cadeia produtiva brasileira deixou de ser apenas uma exigência operacional para se transformar em um diferencial estratégico na conquista e manutenção de mercados.

“Não existe acesso a mercados sem sanidade. É ela que constrói credibilidade internacional. Muitas vezes ouvimos críticas dizendo que alguns procedimentos de biosseguridade são exagerados, mas é justamente esse cuidado que nos colocou em uma posição diferenciada no mundo. Aquela troca de roupa, a higienização, a troca de botas e todas as pequenas boas práticas realizadas diariamente não são detalhes. Elas representam um patrimônio construído ao longo de muitos anos.”

Sula lembrou que, em diversos fóruns internacionais, representantes brasileiros chegaram a ser questionados sobre a ausência de enfermidades presentes em outros grandes produtores mundiais. “Já ouvi pessoas dizerem que era impossível o Brasil não conviver com determinadas doenças. Isso mostra o quanto ainda precisamos valorizar aquilo que conquistamos. Nosso status sanitário virou algo tão comum para nós que, às vezes, esquecemos o quanto ele é extraordinário.”

Um mercado conectado ao mundo

Outro ponto destacado durante a palestra foi o grau de interdependência que caracteriza a cadeia da proteína animal. Na avaliação de Sula, o produtor não pode mais enxergar sua atividade apenas a partir da realidade da propriedade rural. Questões sanitárias, econômicas e políticas ocorridas em qualquer parte do planeta têm potencial para alterar custos, demanda e oportunidades comerciais.

“A porteira não isola ninguém do que acontece no mundo. O problema da China não é apenas da China. O problema da avicultura nunca é apenas da avicultura. O que acontece com os bovinos, com os suínos, com as aves ou com qualquer grande mercado acaba repercutindo em toda a cadeia de proteínas. Somos uma cadeia longa, extremamente integrada e vulnerável às mudanças globais.”

Pandemia, peste suína africana, influenza aviária, conflitos internacionais, problemas logísticos, oscilações cambiais e eventos climáticos extremos foram citados como exemplos recentes de fatores capazes de alterar rapidamente o equilíbrio entre oferta e demanda. “A vida mostra continuamente que tudo é cíclico. Quantas previsões foram feitas e acabaram mudando completamente por causa de acontecimentos que ninguém imaginava? Por isso tenho muito cuidado quando falamos em projeções. Precisamos trabalhar com planejamento, mas também com capacidade de adaptação.”

Resiliência como vantagem competitiva

Se há uma característica capaz de resumir a trajetória recente da proteína animal brasileira, para Sula ela atende por uma palavra: resiliência. “O Brasil apanha, levanta, apanha de novo e continua seguindo em frente. Talvez essa seja uma das nossas maiores virtudes. Os desafios que enfrentamos são do tamanho da nossa importância no mercado internacional. Se hoje somos cobrados, observados e muitas vezes questionados, é justamente porque conquistamos espaço e nos tornamos relevantes.”

Segundo a especialista, a combinação entre disponibilidade de grãos, recursos naturais, tecnologia, conhecimento técnico e organização da cadeia continuará colocando o país em posição privilegiada diante da crescente demanda mundial por alimentos. Ela destacou ainda que vários países buscam ampliar a autossuficiência na produção animal, mas enfrentam limitações estruturais difíceis de superar.

“Sustentabilidade não é apenas um discurso ambiental. Ela também depende de vocação produtiva. O Brasil reúne condições naturais que poucos países possuem: água, disponibilidade de terra, produção de grãos e clima favorável. Esses fatores continuarão sustentando nossa competitividade no longo prazo.”

Olhar além do próximo semestre

Embora o tema da palestra estivesse voltado às oportunidades para o segundo semestre de 2026, Sula preferiu ampliar a discussão e defender uma visão estratégica de longo prazo. Na avaliação da profissional da ABPA, novas oportunidades continuarão surgindo à medida que o Brasil preservar seus diferenciais sanitários, ampliar mercados e fortalecer sua imagem internacional.

“Os desafios continuarão existindo porque eles acompanham o tamanho da nossa produção. O importante é não baixar a cabeça diante deles. Precisamos continuar trabalhando, preservar aquilo que construímos e lembrar que produzir alimentos com qualidade é, antes de tudo, uma responsabilidade com o consumidor e com o futuro da própria atividade.”

Para Sula, o principal ativo da suinocultura brasileira não pode ser medido apenas por indicadores de produção ou exportação. Ele está na capacidade de transformar conhecimento, tecnologia, biosseguridade e resiliência em credibilidade, um patrimônio construído diariamente dentro das granjas e que continua abrindo portas para o Brasil nos mercados mais exigentes do mundo.

A versão digital já está disponível no site de O Presente Rural, com acesso gratuito para leitura completa, clique aqui.

Fonte: O Presente Rural / Fotos: O Presente Rural

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