Rio 40 Graus: a temperatura moral de um Estado capturado pela corrupção

Bahia Brasil colunistas

Por Prof. Waldeck Alves – Quarta, 1 de julho de 2026

O Rio de Janeiro já foi vendido ao Brasil como uma espécie de vitrine moderna da nação. Foi capital do país, centro político, cultural, artístico, midiático e turístico. Durante muito tempo, a identidade carioca foi tratada como referência de um Brasil moderno, cosmopolita, alegre, sofisticado e culturalmente dominante.

O eixo Rio-São Paulo passou a funcionar como coração econômico, político e simbólico do país. Era dali que o Brasil parecia olhar para si mesmo ,ou, pelo menos, era assim que as elites gostavam de se enxergar.
Mas toda vitrine também tem seu depósito. E, muitas vezes, é no depósito que a verdade aparece.
A narrativa da hegemonia cultural carioca sempre carregou uma pretensão de assimilação. Como se o modelo produzido no centro do poder devesse servir de referência para todas as regiões do Brasil. O problema é que essa centralidade nunca foi apenas cultural. Foi também política, econômica e orçamentária.
Por muito tempo, a União funcionou como engrenagem de concentração de privilégios. As desigualdades regionais não nasceram do acaso. Foram aprofundadas por escolhas políticas, por elites econômicas e por um projeto de país que falava em unidade, mas praticava hierarquização.
O Brasil nunca conseguiu realizar plenamente uma unidade política federativa nem uma unidade cultural respeitosa. Somos um país continental, desigual, conflituoso e marcado por fraturas que o discurso oficial tentou esconder debaixo do tapete da cordialidade nacional.

A miscigenação racial, tantas vezes celebrada como prova de harmonia, foi também um processo doloroso, autoritário e hierarquizado. A chamada “democracia racial” serviu, muitas vezes, como anestesia retórica para encobrir racismo estrutural, xenofobia, desigualdade, violência simbólica e exclusão.
A gênese da formação brasileira não é a cordialidade. É a violência.Violência racial. Violência social. Violência econômica. Violência institucional. Violência moral.
E, nesse sentido, o Rio não é um acidente. O Rio é um espelho.
O Rio tem o DNA do Brasil porque revela, em estado febril, a distância entre a narrativa e a realidade. Ali, a falência política chegou a um estágio quase patológico: a corrupção deixou de ser apenas desvio individual e passou a funcionar como método de governo.

Há níveis de corrupção.
Existe a corrupção como ato: o agente público que rouba, frauda, recebe propina, superfatura ou favorece alguém.
Existe a corrupção como cultura: aquela que relativiza o desvio, protege o aliado, naturaliza o favor, transforma o corrupto em “esperto” e só enxerga crime quando o criminoso está no campo adversário.
Mas há um estágio ainda mais grave: a corrupção institucional. Ela acontece quando a própria máquina pública passa a funcionar de modo capturado. Cargos, contratos, licitações, nomeações, órgãos de controle e decisões administrativas deixam de servir ao interesse público e passam a atender grupos políticos, econômicos ou criminosos.
Nesse estágio, já não se consegue separar com facilidade o agente público do operador do crime. O Estado não é apenas roubado. Ele é sequestrado por dentro.
O Rio conhece bem essa tragédia.
Nas últimas décadas, o estado acumulou escândalos, operações policiais, prisões, denúncias de desvios, fraudes em contratos, relações promíscuas entre poder público e poder privado, além da infiltração do crime organizado nas estruturas sociais, econômicas e políticas.
A sucessão de figuras políticas presas, investigadas ou envolvidas em grandes escândalos não é um detalhe estatístico. É um retrato institucional. Quando a exceção se repete demais, ela deixa de ser exceção e passa a revelar o método.

O caso do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro foi simbólico. Conselheiros acusados de receber propina para fazer vista grossa sobre contratos e desvios ligados ao governo estadual. Quando o órgão que deveria fiscalizar também passa a ser suspeito de participar da engrenagem, a corrupção deixa de ser falha. Torna-se sistema.

O Rio é também o território onde a fronteira entre política, milícia, facção, contravenção, extorsão e administração pública se tornou perigosa demais para ser tratada como episódio isolado. O poder paralelo não apenas enfrenta o Estado. Muitas vezes, negocia com ele, infiltra-se nele e convive com ele.
É neste ambiente que a crise moral do Rio precisa ser lida.

O discurso anticorrupção, quando seletivo, é apenas maquiagem moral. Serve para atacar inimigos, proteger aliados e enganar a plateia. A corrupção dos adversários vira escândalo. A dos parceiros vira silêncio, nota técnica, explicação jurídica ou “caso isolado”.

É a velha liturgia da hipocrisia nacional.

O episódio envolvendo a administração estadual expõe, mais uma vez, esse mecanismo. O governador Cláudio Castro, apresentado por setores da direita como conservador, homem de fé e defensor da moralidade pública, tornou-se personagem de uma crise que combina suspeitas de fraudes, cargos fantasmas, licitações questionadas e uso político da máquina.

A Bíblia na mão não impediu a erosão da liturgia republicana.
Religião usada como verniz de poder não santifica gestão nenhuma. Apenas dá aparência de piedade a práticas que continuam cheirando a velha política.
O surgimento do desembargador Ricardo Couto como governador interino acrescenta um elemento ainda mais perturbador. Alguém vindo de fora da política tradicional passa a expor, sem as mesmas amarras partidárias, aquilo que muitos prefeririam manter nos porões da administração.

Quando a auditoria começa a levantar contratos, cargos e estruturas suspeitas, a temperatura moral do Estado sobe. E sobe muito.

Segundo as informações divulgadas, uma secretaria teria 78% dos cargos comissionados ocupados por funcionários fantasmas. Licitações milionárias estariam sob suspeita. E um dos casos mais acintosos envolveria um contrato de R$ 50 milhões para cursos on-line e videoaulas destinados à capacitação de moradores de comunidades carentes.
O contrato teria sido firmado sem licitação, sob a justificativa de “notório saber”.
R$ 50 milhões. Quarenta aulas.

Se confirmado, não se trata apenas de desperdício. Trata-se de escárnio. É a pedagogia da pilhagem financiada com dinheiro público. Um curso sobre cidadania pago com a violação da própria cidadania.

E a auditoria, ao que parece, está apenas começando.

O Rio 40 Graus, neste caso, não é apenas uma referência climática ou cinematográfica. É uma metáfora moral. A temperatura do Estado revela febre alta. O corpo institucional está infectado.

O problema não é apenas um governo, um partido, um secretário ou um contrato. O problema é a normalização de uma cultura política em que o público é tratado como extensão privada de grupos de poder.

O Rio, com sua beleza trágica, continua sendo uma síntese do Brasil. Tem a paisagem deslumbrante e a máquina pública corroída. Tem cultura vibrante e política adoecida. Tem modernidade no discurso e atraso nas práticas. Tem promessa de futuro e vícios antigos operando no presente.

Por isso, aos modernos, liberais, tecnocratas e moralistas de ocasião, convém dizer: sim, o Rio é mesmo a cara do Brasil.

Carrega, em escala dramática, todos os vícios da nossa formação: o privilégio, a desigualdade, o clientelismo, a violência, a promiscuidade entre o público e o privado, a seletividade moral e a captura do Estado.

Mas o fundo do poço não é destino. É escolha.

Ainda resta alguma esperança de que a sombra do Rio atual não seja o retrato antecipado do Brasil futuro.

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