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	<title>colunistas |</title>
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	<title>colunistas |</title>
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		<title>Reflexos </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 May 2026 03:14:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Sábado, 39 de maio de 2026 Essa semana, ouvi alguém muito admirável dizer que iria desistir de um sonho. minha percepção foi de que ela não gostaria de desistir no fim das contas, apenas interromper o barulho de alguns outros sentimentos gritantes por alguns minutos. de alguma forma, aquilo ficou em [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/reflexos/">Reflexos </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Sábado, 39 de maio de 2026</p>



<p>Essa semana, ouvi alguém muito admirável dizer que iria desistir de um sonho. minha percepção foi de que ela não gostaria de desistir no fim das contas, apenas interromper o barulho de alguns outros sentimentos gritantes por alguns minutos.</p>



<p>de alguma forma, aquilo ficou em mim…</p>



<p>por que as pessoas pensam em desistir de um sonho!? por que existem noites em que o mundo inteiro parece excessivamente aceso e outras noites em que nem a lua brilha!?</p>



<p>As avenidas brilhando depois da meia-noite, os apartamentos iluminados como pequenas vidas expostas em vitrines, os carros atravessando a cidade como se todos estivessem fugindo de alguma coisa que nunca alcançam completamente.</p>



<p>e no meio disso tudo, alguém me confessou o desejo de desistir.</p>



<p>Não de maneira dramática. Isso seria mais fácil de compreender.</p>



<p>Foi algo dito com um sorriso no rosto e emoção no olhar.</p>



<p>Como alguém que já cansado, não quer carregar os próprios pensamentos.</p>



<p>E então, eu, logo eu, meu Deus, a Ângela!!! respondi imediatamente algo contrário: “não, você não pode desistir! você é demais fazendo isso!!!”</p>



<p>De fato, eu nunca aprendi a dizer para alguém desistir de si. Nem quero. Nem seria eu…</p>



<p>mas quando o corpo inteiro começa a falhar emocionalmente, como proceder!? como proceder ao escárnio!? quais tentativas temos e em qual balança pesar!?</p>



<p>Acho que o verdadeiro esgotamento nasce quando a vida perde profundidade.</p>



<p>Quando os dias começam a parecer cenas repetidas de um longo filme.</p>



<p>O mesmo despertador. as mesmas notificações. os mesmos trajetos. os lutos diários. as perdas. As mesmas pessoas dizendo “vai passar” como quem joga um cobertor fino sobre um incêndio. </p>



<p>Vai arder mais, você não entende!? Vai incendiar a casa, as coisas, os brilhos, as pessoas…</p>



<p>O ar ficará cada vez mais rarefeito.</p>



<p>Cinematograficamente bonito. </p>



<p>E ao mesmo tempo constrangedor.</p>



<p>É como um escrito na madrugada.</p>



<p>Algo que não exige explicações.</p>



<p>Receber rosas, talvez.</p>



<p>Ganhar uma carta escrita à mão. </p>



<p>Uma fotografia qualquer onde dois corpos apenas permanecem próximos sem precisar transformar aquilo em qualquer definição.</p>



<p>A luz dourada atravessando nossas pernas como fim de tarde em película antiga.</p>



<p>O chão metálico refletindo uma frieza bonita, urbana e comportada.</p>



<p>Eu penso no quanto algumas coisas ainda conseguem impedir a queda completa.</p>



<p>Uma música específica tocando dentro do carro numa rua vazia.</p>



<p>O som do salto encontrando o chão enquanto alguém acompanha teus passos sem acelerar os próprios.</p>



<p>O cheiro de chuva preso numa roupa. o cheiro do perfume e da chuva presos numa roupa…</p>



<p>Pessoas que fazem a vida parecer menos hostil. </p>



<p>O visor do celular acendendo de madrugada com uma mensagem inesperada.</p>



<p>O pequeno intervalo entre uma risada e outra.</p>



<p>Porque talvez desistir tenha relação direta com esquecer que ainda existem detalhes capazes de sustentar a nossa permanência ali. em qualquer sonho.</p>



<p>e eu sei…</p>



<p>Existem dias em que o espelho se torna cruel, os sonhos parecem distantes demais da pessoa que somos no presente, dias em que o corpo fica cansado antes mesmo da manhã começar.</p>



<p>Mas ainda assim, pensar na possibilidade.</p>



<p>Mesmo depois do excesso, depois do choro engolido, depois de olhar para o próprio futuro como quem olha uma janela fechada.</p>



<p>Abrir a janela.</p>



<p>Criar estratégias.</p>



<p>Desarmar o medo.</p>



<p>Chamar a coragem para tomar um café.</p>



<p>Pedir uma pausa, talvez.</p>



<p>Mas… enfim…</p>



<p>Continuar.</p>



<p>A grande arte, extremamente delicada, que é a vida.</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/reflexos/">Reflexos </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>FIXAÇÃO </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 00:49:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Coluna]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[escrito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça, 19 de maio de 2026 me perguntaram qual é a parte do meu corpo que eu mais gosto. meus olhos, eu disse. mas eles são castanhos, me disseram. e por um instante eu pensei no quanto as pessoas passam a vida inteira confundindo a ideia de valor. como se a [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/fixacao/">FIXAÇÃO </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça, 19 de maio de 2026</p>



<p>me perguntaram qual é a parte do meu corpo que eu mais gosto.</p>



<p>meus olhos, eu disse.</p>



<p>mas eles são castanhos, me disseram.</p>



<p>e por um instante eu pensei no quanto as pessoas passam a vida inteira confundindo a ideia de valor. como se a beleza precisasse lembrar o oceano para ser profunda e bela de verdade.</p>



<p>é como se a cor da terra não fosse justamente aquilo que em tudo vive.</p>



<p>a cor, de fato, não importa muito se você parar pra pensar em tudo o que alguns olhos observaram ou ainda observam…</p>



<p>continuar observando o mundo rodar e a vida passar, mesmo depois de perceber certas crueldades… é um desafio. e mesmo assim, ainda ter a delicadeza das rosas, apesar de tudo o que já atravessou e viu.</p>



<p>me perguntaram o que eu mais gosto em mim.</p>



<p>meu sorriso, eu disse.&nbsp;</p>



<p>e nos perdemos em silêncio.</p>



<p>como se fosse absurdo amar justamente a parte de mim que é tão comum conseguir: um sorriso.&nbsp;</p>



<p>32 dentes em uma boca.</p>



<p>as linhas.</p>



<p>algum pouco de batom borrado.</p>



<p>expressão.</p>



<p>os olhos.</p>



<p>sentimento.</p>



<p>beleza imóvel.</p>



<p>transcendental.</p>



<p>histórica…</p>



<p>a melhor parte de mim nunca esteve na simetria. ela vive nessa pequena curva que aparece depois do caos.&nbsp;</p>



<p>é a tímida curva que insiste em se formar em meus lábios.</p>



<p>nesse movimento quase tímido dos lábios quando qualquer coisa dentro de mim decide permanecer viva apesar de ter todas as vontades de desaparecer por alguns dias.</p>



<p>tentaram me ensinar a olhar para mim de uma maneira errada.&nbsp;</p>



<p>analisando e procurando defeitos…</p>



<p>grande demais.&nbsp;</p>



<p>torto demais.&nbsp;</p>



<p>torpe demais!</p>



<p>sensível demais.&nbsp;</p>



<p>intenso demais.</p>



<p>requisitos demais.</p>



<p>“critérios” demais…</p>



<p>mas eu nunca fui “demais”.</p>



<p>eu nunca coube na forma pequena com que enxergam as coisas.</p>



<p>meu corpo carrega marcas porque eu vivi dentro dele.&nbsp;</p>



<p>minha mente nunca para porque não a deixo parar.</p>



<p>porque o tempo passou por mim.&nbsp;</p>



<p>porque existir altera a matéria das pessoas.&nbsp;</p>



<p>e eu acho um tanto quanto assustador tentar transformar isso em vergonha ou exposição.</p>



<p>não há culpa em crescer.</p>



<p>mudar.</p>



<p>sangrar.</p>



<p>desejar.</p>



<p>sentir o mundo de maneira excessiva, expansiva, dimensionada.</p>



<p>e eu sinto. e sangro.</p>



<p>escrevo. e sangro.</p>



<p>eu passo meu café, sempre com notas de caramelo. e sangro.</p>



<p>sinto tudo de uma maneira perigosa.</p>



<p>as memórias ficam vivas por tempo demais em mim. os lugares permanecem no meu corpo mesmo depois que eu vou embora deles. certas palavras continuam ecoando durante anos. certas dores criam raízes fortes e saudáveis.</p>



<p>é deveras violenta toda essa beleza…</p>



<p>porque enquanto muitas pessoas passam pela vida anestesiadas, eu estou aqui experimentando cada sensação piamente. até onde queima. eu me deixo transbordar.</p>



<p>não permito mais me diminuir para parecer fácil de ser amada. não quero amputar partes minhas para caber no conforto de ninguém. eu quero é a honestidade de ser inteira, mesmo quando isso assusta.</p>



<p>vou me respeitar, acima de tudo.</p>



<p>e talvez seja isso que mais incomoda. essa minha tranquilidade de alguém que finalmente parou de pedir desculpas por existir.</p>



<p>Foto : Angela Monize</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/fixacao/">FIXAÇÃO </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Intenso como o Peso do Amanhã </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 May 2026 20:03:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>o mundo pulsa forte depois da meia-noite. Por Angela Monize &#8211; Quarta, 13 de maio de 2026 as avenidas continuam acesas como se a cidade tivesse desaprendido a dormir. os postes derramam luz sobre o asfalto molhado, os semáforos trocam de cor para ninguém, os fios elétricos cortam o céu como cicatrizes suspensas. e eu [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/intenso-como-o-peso-do-amanha/">Intenso como o Peso do Amanhã </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>o mundo pulsa forte depois da meia-noite.</p>



<p>Por Angela Monize &#8211; Quarta, 13 de maio de 2026</p>



<p>as avenidas continuam acesas como se a cidade tivesse desaprendido a dormir. os postes derramam luz sobre o asfalto molhado, os semáforos trocam de cor para ninguém, os fios elétricos cortam o céu como cicatrizes suspensas.</p>



<p>e eu atravesso tudo isso sentindo o peito cheio de alguma coisa impossível de conter.</p>



<p>é como se existir queimasse por dentro.</p>



<p>o corpo tenta acompanhar a velocidade dos dias, das pessoas, das mudanças, enquanto o coração insiste em sentir tudo até o extremo. até a última camada. onde já não deveria alcançar.</p>



<p>eu vejo a neblina da minha janela ao amanhecer e penso no quanto a vida nunca desacelera por ninguém. vejo prédios gigantescos ocupando o horizonte como monumentos erguidos ao cansaço. vejo janelas acesas às quatro da manhã e sei que existe alguém do outro lado tentando sobreviver ao próprio excesso também.</p>



<p>aquilo que se faz com os pensamentos, com as memórias, com um futuro inteiro acumulado dentro da cabeça…</p>



<p>o excesso.</p>



<p>não ouço dizer sobre o peso que cada pessoa pode ou consegue carregar. sobre essa necessidade absurda de continuar funcionando mesmo quando alguma coisa dentro da gente já desmoronou faz tempo. a normalidade me assusta às vezes. essa encenação coletiva de que todo mundo suporta tudo muito bem e o tempo todo.&nbsp;</p>



<p>ninguém suporta nada.&nbsp;</p>



<p>a encenação se recria.</p>



<p>a vida passa por cima de mim constantemente e, ainda assim, eu preciso levantar. responder mensagens. sorrir em alguns momentos. continuar atravessando ruas como se os meus pensamentos não estivessem imensos dentro da minha cabeça. engolir o tempo todo aquele gostinho de chorar…</p>



<p>me sinto ao avesso.</p>



<p>e talvez o pior seja perceber que ninguém consegue visualizar sentimentos. as pessoas escutam, aconselham, abraçam… mas ninguém vê realmente. ninguém toca exatamente no lugar onde as coisas doem. às vezes, acontece o contrário.</p>



<p>as pessoas mudam de voz. &nbsp;</p>



<p>os lugares perdem o cheiro. &nbsp;</p>



<p>as roupas deixam de servir. &nbsp;</p>



<p>os sonhos apodrecem ou florescem rápido demais.</p>



<p>e eu continuo sentindo tudo.</p>



<p>de uma maneira quase inconveniente. exagerada. insuportável.</p>



<p>mas ainda assim, viver continua sendo incrivelmente bonito.</p>



<p>é surreal perceber que consigo transformar tudo isso em palavra. escrever exatamente do jeito que sangra. tocar alguém que talvez nunca tenha me visto na vida, mas que vai parar por alguns segundos porque se reconheceu em alguma frase minha.</p>



<p>isso me destrói de um jeito bonito.</p>



<p>porque escrever, pra mim, sempre foi o jeito mais honesto de existir.</p>



<p>é quase como abrir o peito com as próprias mãos e ainda assim continuar viva. escrever de qualquer maneira, até mesmo em conversas aleatórias com meus amigos mais íntimos. entregar a minha dor crua, em palavras, o tempo todo.&nbsp;</p>



<p>o único lugar onde eu finalmente não preciso diminuir a intensidade das coisas.</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/intenso-como-o-peso-do-amanha/">Intenso como o Peso do Amanhã </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Máquina de Escrever</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 May 2026 21:21:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
		<category><![CDATA[Máquina de Escrever]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>faz sentido que algumas coisas cheguem antes da linguagem.antes da escolha das palavras, da intenção de escrever, até mesmo de saber que aquilo um dia teria nome. fenômenos poéticos… é como eu costumo chamar tudo isso que me atravessa. mas isso começou antes mesmo de qualquer tentativa de entendimento. antes da ideia de organizar palavras, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>faz sentido que algumas coisas cheguem antes da linguagem.<br>antes da escolha das palavras, da intenção de escrever, até mesmo de saber que aquilo um dia teria nome.</p>



<p>fenômenos poéticos… é como eu costumo chamar tudo isso que me atravessa. mas isso começou antes mesmo de qualquer tentativa de entendimento.</p>



<p>antes da ideia de organizar palavras, antes de caber em explicação e de se tornar algo que eu pudesse apontar e dizer “é isso!”. começou quando ainda não havia um nome suficiente para o que eu sentia, nem um tipo de tradução específica.</p>



<p>no gesto de ver algo ganhar forma, eu fui. no barulho ritmado de uma máquina respondendo ao toque, no movimento repetido que, aos poucos, deixava de ser mecânico e passava a ser íntimo.</p>



<p>antes de saber que aquilo era escrita e que as palavras se soltavam de mim, isso já era encontro.</p>



<p>com o tempo das coisas, a insistência necessária para que algo exista de dentro pra fora. como se, ali, eu estivesse sendo apresentada não às palavras, mas ao processo de dar sentido a elas.</p>



<p>eu amo narrar histórias, momentos, tudo o que faz sentido num instante qualquer, mas que ganha importância quando observados por um olhar sensível.</p>



<p>tudo começou com uma máquina de escrever e gestos que vieram antes de mim. a máquina respondia ao toque com um som seco, quase definitivo. nada de deslizar os dedos na tela como se faz hoje em dia. ali, cada letra exigia algo. o dedo descia com decisão, encontrava resistência, e então o pequeno impacto acontecia.<br>metal contra fita, fita contra papel.<br>e a letra nascia.</p>



<p>o primeiro contato não foi com a escrita como ideia, mas com a escrita como acontecimento.<br>o corpo participava.<br>o pulso, o ritmo, a força.<br>não dava para escrever distraída.<br>cada tecla pressionada era uma escolha que não voltava. apagar não era fácil. não havia desfazer.<br>eu seguia um passo de cada vez, a minha tela era uma máquina de escrever e, ao fundo, um pé de pinha e outro de acerola.</p>



<p>e um fascínio muito específico…<br>ver o pensamento se tornando visível em tempo real, com pequenas imperfeições, desalinhamentos mínimos, marcas de tinta mais fortes em algumas letras do que em outras.<br>a palavra não vinha perfeita,<br>ela vinha viva.</p>



<p>o papel era conduzido. preso por um rolo firme, girado com cuidado, medindo o espaço do que ainda iria ser dito.<br>e cada avanço era um pequeno ritual.<br>girar, alinhar, ajustar.<br>um tempo entre uma linha e outra.<br>um tempo que obrigava a sustentar o que se pensava.</p>



<p>quando a linha chegava ao fim, eu precisava agir de novo.<br>a mão empurrava a alavanca lateral, e então vinha aquele movimento inteiro.<br>o carro deslizando de volta, rápido, com um som contínuo, quase satisfatório.<br>eu sentia a máquina respirar antes de recomeçar.<br>e tudo voltava ao início.<br>pronto para mais uma tentativa de continuidade das coisas.</p>



<p>ah… a continuação das coisas…<br>algo tão bonito…</p>



<p>a máquina carregava isso. não era só uma ferramenta de trabalho.</p>



<p>quanto mais se escrevia, mais se fixava uma ideia.<br>cada palavra tinha peso.<br>cada erro permanecia ali.</p>



<p>já pararam para pensar que a nossa vida é assim? tudo o que fazemos, tudo o que somos, tudo o que construímos… nos atravessa, mas não se desfaz.<br>a continuidade acontece mesmo assim.</p>



<p>e talvez tenha sido ali que a escrita ganhou outro sentido pra mim. não é algo que precisa sair certo de primeira, mas algo que se constrói mesmo com falhas visíveis, ruídos ou interrupções.</p>



<p>a máquina de escrever ensina isso sem explicar muito.</p>



<p>ensina que ideia não basta.<br>é preciso tocar, insistir, atravessar, viver…</p>



<p>quando a folha já está preenchida, existe um gesto final de puxar o papel para fora e sentir a leve resistência antes dele se soltar. segurar nas mãos aquilo que, minutos antes, não existia.</p>



<p>a folha vem com marcas.<br>algumas mais fundas, outras quase apagadas.</p>



<p>escrever, desde então, nunca foi sobre evitar falhas ou buscar fluidez.<br>talvez tenha ficado mais próximo disso mesmo…</p>



<p>aceitar o som, o peso, o intervalo,<br>sustentar o movimento até o fim da linha,<br>e entender que, às vezes, o que permanece no papel não é só o que se quis dizer,<br>mas tudo o que foi necessário atravessar para conseguir dizer.</p>



<p>escrever, pra mim, é como viver.<br>escrever, pra mim, é como respirar.<br>não tem como voltar ou apagar.<br>vou. escrevo. erro. percebo.<br>e continuo…</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/maquina-de-escrever/">Máquina de Escrever</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Trio parada dura no São João de Ipirá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2026 02:32:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Agildo Barreto]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cidades]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá]]></category>
		<category><![CDATA[Ipira]]></category>
		<category><![CDATA[Sao Joao]]></category>
		<category><![CDATA[Trio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Agildo Barreto &#8211; Sábado, 2 de maio de 2026 Nos últimos dez anos, os Estados Unidos torraram 5 trilhões de dólares em gastos militares. Esse dinheiro é tirado de onde? Dos cofres do Estado norte-americano. Nesse embalo, a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou 38 trilhões de dólares (último relatório mensal de fevereiro 2026 [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Agildo Barreto &#8211; Sábado, 2 de maio de 2026</p>



<p>Nos últimos dez anos, os Estados Unidos torraram 5 trilhões de dólares em gastos militares. Esse dinheiro é tirado de onde? Dos cofres do Estado norte-americano. Nesse embalo, a dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou 38 trilhões de dólares (último relatório mensal de fevereiro 2026 da dívida pública americana).</p>



<p>Essa dívida é tão alta e é tanto dinheiro, tanto dinheiro que não houve condições de entrar no programa de renegociação de dívidas do governo federal brasileiro, o Desenrola. Aí o que faz o presidente norte-americano Donald Trump? Começou a fazer guerra para roubar petróleo, querendo ver se resolve o problema deles.</p>



<p>Como a Inglaterra, no século XVI, fazia pirataria para roubar navios espanhóis carregados de ouro, agora, em pleno século XXI, os Estados Unidos praticam a pirataria para roubar navios petroleiros ligados ao Irã, abarrotados de petróleo no Estreito de Ormuz.</p>



<p>A verdade é que a guerra está secando o estoque de mísseis dos EUA e nada da guerra acabar. Trump diz que já ganhou e nada da guerra acabar! A Europa vai passar um perrengue doido para subsidiar energia e fertilizantes. Essa crise do petróleo vai lascar o mundo. É uma crise provocada por uma guerra. E uma guerra provocada pelo presidente norte-americano Donald Trump.</p>



<p>Os EUA gastam 997 bilhões de dólares em material bélico por ano; o Irã não gasta 50 bilhões de dólares por ano. Mesmo com uma desproporção dessa os EUA não conseguiram tirar o Irã do mapa. O presidente Trump já solicitou ao Congresso americano um orçamento de defesa de 1,5 trilhão de dólares para o ano fiscal de 2027. Prova que o Irã ainda está vivo e resiste.</p>



<p>Observe bem observado. Quando o presidente Trump fala, o barril de petróleo sobe ou baixa o preço. Tem quem fature bilhões de dólares com as informações privilegiadas em questão de minutos antes da fala. Os combustíveis subiram de preço dentro dos EUA. Tudo isso é problema para o governo Trump. O custo dessa guerra é astronômico e alguém vai ter que pagar. E na ideia de Trump tem que ser o Irã com seu petróleo e a população mundial comprando combustível caro na bomba do posto de gasolina.</p>



<p>Aí eu digo assim: ‘que elemento da desgraça é esse presidente Trump’. Vou ser sincero, não troco o prefeito Tiago Oliveira de Ipirá por esse presidente Trump de jeito nenhum. Esse presidente Trump não vale um cacho de banana podre. O presidente Trump só pensa em fazer guerra e o prefeito Tiago Oliveira só pensa em fazer festas.</p>



<p>Pense o prefeito T.O. com 1 trilhão e meio de dólares! O homem ia fazer festa até ‘uma zora’, seria um mandato de quatro anos todo de festa, ‘festa todo dia e o dia todo’. O presidente Trump governando Ipirá ia fazer uma guerra contra alguém, nem que ele lascasse a boca.</p>



<p>Esta semana, eu encontrei 26 cachorros na&nbsp; praça do Barão; quando cheguei no parque tinha 9 cachorros abandonados; na rodoviária tinha 6 cachorros. O que faz o prefeito T.O.? Nada. Se fosse Trump na prefeitura, ele passava o tição e não deixava um para latir e afugentar a gatunagem (gatos) que perambulam pelos telhados das casas.</p>



<p>Imagine o prefeito T.O. com 1 trilhão e meio de dólares! Essa macacada ia a loucura: “rá, rá, a prefeitura é nossa!” Ô bicho descompreendido é macaco! São mais de 22 mil votantes e eles não aprenderam ainda, que com o prefeito T.O. eles não chupam umabala de mel da prefeitura; no jogo do prefeito T.O. na hora de chupar o tutano do osso, só entra meia-dúzia de macaco e olhe que é meia-dúzia de oito.</p>



<p>Como presidente Trump governando Ipirá, essa macacada ia ter era o pelotão de fuzilamento lascando fogo na cabeça. O presidente Trump quer formar esse pelotão de fuzilamento que, aqui em Ipirá, teria a tarefa de botar no paredão e fuzilar cachorro e macaco.</p>



<p>Quem tem medo do ditador Kim da Coréia do Norte? Nenhum governante do mundo. Essa turma se pela de medo é de Trump, ao ponto de não falar nem no nome de ‘la ele’ em pronunciamento, só fazem referência. Qual é a diferença dos dois? Kim é um ditador e Trump é um facínora.</p>



<p>No Irã estão sendo assassinadas crianças, velhos, homens e mulheres, cachorros também. Para encobrir sua cachorrada, Trump acabou de dizer que ‘o mundo virou um cassino’; não é por acaso que as grandes empresas petrolíferas norte-americana estão ganhando fortunas com a guerra do petróleo e a população mundial é quem paga o pato, os macacos e os cachorros.</p>



<p>Fonte e foto: Blog do Agildo Barreto</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="SECULT, UPB E A TERRITORIALIZAÇÃO" width="640" height="360" src="https://www.youtube.com/embed/Vxqy4v3yTsk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure><p>The post <a href="https://ipiracity.com/trio-parada-dura-no-sao-joao-de-ipira/">Trio parada dura no São João de Ipirá</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Flor do Trovão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2026 02:06:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Domingo, 26 de abril de 2026 passando pela chuva,gotas ainda presas no ar, o cheiro denso da terra,o barro cedendo sob os passos, o céu recém-aberto em respiração,eu a observo. passando pela mata,chão verde entre cortes de terra seca, raízes expostas, pequenos silêncios vivos entre folhas,o tempo suspenso entre o que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Domingo, 26 de abril de 2026</p>



<p>passando pela chuva,<br>gotas ainda presas no ar, o cheiro denso da terra,<br>o barro cedendo sob os passos, o céu recém-aberto em respiração,<br>eu a observo.</p>



<p>passando pela mata,<br>chão verde entre cortes de terra seca, raízes expostas, pequenos silêncios vivos entre folhas,<br>o tempo suspenso entre o que morreu e o que ainda vive,<br>eu a observo.</p>



<p>passando depois do trovão,<br>ar ainda carregado, o eco vibrando baixo,<br>o mundo em ajuste fino,<br>eu a observo…</p>



<p>uma flor de trovão interrompe minha pupila</p>



<p>o olhar falha por um segundo,<br>como se a luz tivesse sido desviada diretamente pra você.</p>



<p>o campo inteiro perde definição, e só um ponto permanece nítido.</p>



<p>cor aberta, haste fina, dimensionada.</p>



<p>a luz se concentra<br>a cor acende no meio do terreno irregular, luminoso, derradeiro…</p>



<p>minha pupila dilata,<br>tentando alcançar o que transborda.</p>



<p>um foco de claridade,<br>vibrando contra o fundo opaco do chão,<br>fazendo do olhar um lugar estreito demais para contê-la.</p>



<p>o campo inteiro cede.</p>



<p>cebola brava,<br>cravada no chão com raízes densas,<br>camadas sobre camadas guardadas sob a superfície.</p>



<p>existe em você algo que não se entrega inteiro de imediato, mas vibra intensamente no seu sorriso.</p>



<p>sou puxada pela raiz,<br>ela incendeia.<br>somente algumas pessoas conseguem ver tal efeito.<br>há mais beleza no que não se mostra de imediato. mais força no que permanece oculto.</p>



<p>o sorriso, aberto como flor, de orelha a orelha,<br>não encerra,<br>inicia tudo.</p>



<p>meus olhos acompanham,<br>e tudo converge.</p>



<p>e ali,<br>nesse ponto exato onde tudo converge,</p>



<p>sou puxada pela raiz, em busca de saber quão próxima estou dos segredos que posso ouvir, das memórias compartilhadas, os cafés em copos de vidro sobre uma mesa transparente atravessada de informações.</p>



<p>as camadas da cebola brava, como quis ser chamada.<br>as camadas que, quando se soltam, ardem,<br>fazem os olhos reagirem,<br>fazem lacrimejar não de dor,<br>mas de intensidade.</p>



<p>a verdade é que nem toda beleza é leve de atravessar.</p>



<p>existe uma estrutura que guarda, protege,<br>e não permite acesso descuidado.</p>



<p>e ainda assim,<br>é impossível não querer entender de onde vem tanta incidência,<br>tamanha força concentrada em tão pouco tempo.</p>



<p>talvez exista um segredo guardado no que não se mostra de imediato.<br>talvez o brilho venha justamente do que ficou retido, comprimido, elaborado no escuro.</p>



<p>talvez a superfície seja só um gesto e o essencial seja a matéria viva.</p>



<p>você,<br>flor que responde ao impacto,<br>que se mantém mesmo sob a chuva,<br>entre os trovões, quando o mundo ainda vibra.<br>que carrega mais do que se deixa ver.<br>e é por isso que apenas olhar não satisfaz.<br>retorna e insiste na boa conversa, nas gracinhas, no riso solto…</p>



<p>e é por isso<br>que eu a observo…</p>



<p>entre uma conversa e outra, o tempo se abre em detalhes.<br>um café dividido,<br>uma frase que permanece<br>projetos, sonhos, vida.<br>um riso que não se esgota.</p>



<p>há uma construção acontecendo.</p>



<p>permanecer perto o suficiente pra ver mais uma camada se revelar.</p>



<p>e então, sem alarde,<br>a amizade começar a florescer<br>entre eu e você,<br>cebola brava.</p>



<p>Foto: Angela Monize</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/flor-do-trovao/">Flor do Trovão</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Um tiro no sol</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gleidson Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 Apr 2026 11:32:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alexandre Gusmão]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Ipirá City]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Alexandre Gusmão “Disparo contra o sol / sou forte, sou por acaso / minha metralhadora cheia de mágoas / eu sou um cara”.Repare o tempo: o dono do relógio. Vive ele também parado. Um dia, por obra do destino, uniram-se num mesmo coro Cazuza, roqueiro anos oitenta, dono dos versos acima, e Justiniano, lavrador [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Alexandre Gusmão</p>



<p>“Disparo contra o sol / sou forte, sou por acaso / minha metralhadora cheia de mágoas / eu sou um cara”.<br>Repare o tempo: o dono do relógio. Vive ele também parado. Um dia, por obra do destino, uniram-se num mesmo coro Cazuza, roqueiro anos oitenta, dono dos versos acima, e Justiniano, lavrador do sertão de Ipirá, que viveu nos anos vinte do século passado.</p>



<p>“Extremamente nervoso, ossudo e muito alto” — assim o descreve Eugênio Gomes em O Mundo da Minha Infância. O escritor conta que, indignado pela escassez impiedosa das chuvas e já descrente de qualquer providência divina, Justiniano perdeu a compostura, armou sua espingarda pica-pau, e cheio de mágoas, deu um pipoco no sol. Um tiro no sol.<br>Justiniano, como Cazuza, também era um cara. E ganhou fama. Não por acaso, também foi chamado de louco. </p>



<p>Cruzasse a rua depois desse fato, beatas se benziam, meninos faziam arrelia.<br>Eivado de mágoas também, mas sem o conflito com o divino, cantam os versos de Incelênça pra terra que o sol matou, de Elomar:<br>“Levanto meus olhos, pela terra seca /<br>só vejo a tristeza, que desolação /<br>uma ossada branca fulorando o chão.”</p>



<p>A imagem revolta; a melodia apascenta. As incelências são cantos antigos de guarda e vigília. A estrofe seguinte é um dedo em riste apontando para o sol:<br>“Inté os olhos d’água chorou que secou /<br>e o sol dessas mágoa /<br>queimou os imbuzero, os bode e os carnêro, toda a criação /<br>isso o sol queimou.”<br>sobre o carcará e a sussarana &#8211; dois predadores da caatinga, o cantador acusa:<br>“isso o sol poupou.”<br>Justo não é, diria Justiniano.</p>



<p>O escritor que recolheu essas histórias em cacos da própria memória teve parte de sua formação na histórica cidade de Cachoeira, recôncavo baiano. Em Memórias, descreve as inesquecíveis manhãs ao atravessar a ponte nova para o colégio, debaixo de bruma. O nevoeiro acima. O Paraguaçu embaixo.</p>



<p>Nos cacos da minha memória: as férias, a mesma ponte, minha família, uma Variant azul e o som do atrito de ferro e madeira.</p>



<p>Era o ano de 1985. Um século antes, a Ponte Dom Pedro II, importada da Inglaterra, fora entregue à cidade. Pertencia, também ela, ao tempo de Justiniano.<br>De Cachoeira brotaram, ambos poetas, Damário da Cruz e João de Moraes Filho.</p>



<p>O primeiro escreveu: “De mim exijam pouco… pois o tempo que me resta é louca busca de atravessar o sol.”<br>E ainda:<br>“quanto mais eu sonho com Cachoeira /<br>mais amanheço em Nova York.”</p>



<p>Eugênio Gomes anota que, andando por NY, onde morou, e vendo os arranha-céus, vinha-lhe à cabeça um sobrado com telhado de três águas, imponente na humilde praça de sua cidade natal, nos anos de 1900. Ali onde quase nada havia e qualquer coisa se tornava imensa.</p>



<p>Em Fortaleza, numa manhã de janeiro de 1942, depois de três dias seguidos de chuva grossa, o astro-rei resolveu aparecer. Bastou. Sem aviso, sem combinação, a Praça do Ferreira se encheu de gente.</p>



<p>Todos contra o sol: um coro de vaias e assobios. Não houve tiro, mas xingamentos e gritos.<br>João de Moraes, quase um século depois do tiro de Justiniano, compõe os versos:<br>“O sol bate mais forte<br>na cara do homem que capina a esperança<br>por um prato de comida<br>quieta, menino, não dispare contra o sol,<br>ele esfria de cansaço.”</p>



<p>A ciência diz que o sol se apagará um dia. O danado, antes do fim, vai se expandir e contrair, só para contrariar. Coisa vai ser, Justiniano, quando o segundo sol chegar.</p>



<p>Alexandre Gusmão é arte educador,<br>professor de arte e biólogo.</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/um-tiro-no-sol/">Um tiro no sol</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Café com Notas de Caramelo </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Apr 2026 22:15:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[cafe]]></category>
		<category><![CDATA[caramelo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça,21 de abril de 2026 “me ame” &#8211; era o que ela dizia. “amo você da cabeça aos pés, não vou desistir” &#8211; uma voz intensa ressaltava no fundo.&#160; a persistência dessa ideia poderia até gerar a cura de um trauma.&#160; quase parece que eu pronunciei exatamente essas palavras pra você. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça,21 de abril de 2026</p>



<p>“me ame” &#8211; era o que ela dizia.</p>



<p>“amo você da cabeça aos pés, não vou desistir” &#8211; uma voz intensa ressaltava no fundo.&nbsp;</p>



<p>a persistência dessa ideia poderia até gerar a cura de um trauma.&nbsp;</p>



<p>quase parece que eu pronunciei exatamente essas palavras pra você. mas não tive saciedade de te contar sobre o meu amor. não ainda.&nbsp;</p>



<p>preciso sentir você até a última instância.</p>



<p>pelo menos uma vez por semana, nossas brincadeirinhas atiçam as risadas, o seu estresse e a minha felicidade genuína. quando você quer me tirar de cima de você é o momento em que mais eu quero subir.&nbsp;</p>



<p>me adentrar, ficar em cima, nas suas costas, me encaracolar, enlaçar todos os meus átomos em você.&nbsp;</p>



<p>enfiar minhas unhas em tua pele, amassar tua barba, demorar dentro da tua boca.</p>



<p>continuar e&#8230;&nbsp;</p>



<p>você sabe, eu não sei mentir sobre meus sentimentos. me envolvo em teu cheiro e deixo você me conduzir sempre para o que você quer.&nbsp;</p>



<p>o que desejar, é sempre você que escolhe, mesmo se for para dormir e eu velar o teu sono, ouvir tua respiração, inventar maneiras de continuar ouvindo teu coração bater em meu ouvido, bem pertinho, instintivamente&#8230;</p>



<p>ah, você…</p>



<p>um café recém-passado, com notas suaves de caramelo que se revelam aos poucos.</p>



<p>sabor, beleza e aroma.</p>



<p>sinto na forma como me olha,</p>



<p>como se cada detalhe meu fosse tudo aos seus olhos,</p>



<p>como se houvesse ali um cuidado natural,</p>



<p>inevitável.</p>



<p>uma transparência que não se esconde atrás de gesto algum.</p>



<p>tudo é dito, mesmo quando não há palavra.</p>



<p>tudo aparece, mesmo no silêncio.</p>



<p>me intriga a facilidade com que me alcança,</p>



<p>como se já soubesse o caminho,</p>



<p>como se já tivesse estado aqui antes.</p>



<p>quando se aproxima e o ambiente muda de temperatura.&nbsp;</p>



<p>eu mudo de temperatura.&nbsp;</p>



<p>o ar parece mais rarefeito, mais presente, respirável, exalando seu cheiro natural.</p>



<p>o instante ganha corpo.</p>



<p>suas mãos encontram as minhas.&nbsp;</p>



<p>suas mãos são brutas, indelicadas.</p>



<p>deslizam cuidadosamente pelos meus ombros, reconhece a pele.&nbsp;</p>



<p>um território geograficamente conhecido.</p>



<p>param ali por um segundo a mais, dizendo algo que ainda não se pode pronunciar.</p>



<p>sabe qual é a parte mais perigosa desse seu jeito de conquistar?</p>



<p>quando me toca o rosto.</p>



<p>me envolve.</p>



<p>os dedos desenham um contorno silencioso,</p>



<p>sobem devagar,</p>



<p>e, por um instante,</p>



<p>o mundo se reduz àquilo.</p>



<p>o toque.</p>



<p>a respiração próxima.</p>



<p>o tempo suspenso.</p>



<p>ele desce com esse mesmo cuidado, a mesma precisão, cada movimento intencionado, como se cada detalhe fosse escolhido milimetricamente e sentido inversamente ao mesmo tempo.</p>



<p>o seu amor se sustenta no olhar. o seu amor é agridoce. o seu amor é a forma mais bonita de perceber a vida e de vive-la também.</p>



<p>deixo que ele me alcance,</p>



<p>me percorra,</p>



<p>me leia.</p>



<p>afinal, ele merece isso.</p>



<p>como quem segura uma xícara entre as mãos</p>



<p>e sabe, antes mesmo de provar,</p>



<p>que aquilo vai marcar.</p>



<p>ele chegou como um sabor que eu não sabia nomear,</p>



<p>há nele a densidade de um café recém-passado,</p>



<p>na medida exata,</p>



<p>com notas suaves que se revelam devagar,</p>



<p>um caramelo quente,</p>



<p>um toque que permanece na língua.</p>



<p>como quem entende o peso exato do toque, no percurso lento que ele faz sem nunca se apressar em chegar.</p>



<p>o meu café esfria inexoravelmente, aproveito o aroma que ele traz, o toque quente que sinto queimar meus dedos e boca ligeiramente.&nbsp;</p>



<p>deixo que ele me alcance sem interromper o percurso.</p>



<p>há um tempo próprio nisso tudo, como o da água que atravessa os grãos de café moído, nem rápida demais a ponto de rasgar o sabor, nem lenta ao ponto de estagnar.</p>



<p>como quem sabe que tudo o que importa já está ali.&nbsp;</p>



<p>me percorrendo assim, em camadas.</p>



<p>os dedos sentem a borda da xícara,</p>



<p>a boca guarda o traço do primeiro gole, em pequenas camadas, ecos discretos, lembranças sensoriais…&nbsp;</p>



<p>primeiro, o impacto.</p>



<p>quente, direto, quase amargo, início este que acorda a boca</p>



<p>e exige atenção.</p>



<p>depois, o corpo.&nbsp;</p>



<p>denso, envolvente, preenche o paladar, se instala na língua, no céu da boca, cria algo que não se dispersa fácil.</p>



<p>depois, o fundo.</p>



<p>adocicado pelo caramelo aquecido no ponto certo, não muito doce, apenas um ponto diante do amargo sabor de café, um doce que vem da torra, da transformação, do que foi queimado o suficiente para ganhar a profundidade de sabor.</p>



<p>o gosto que permanece quando o gole já passou, o rastro insiste na memória que não se apaga.&nbsp;</p>



<p>exige pausa entre um gole e outro, não permite distração.&nbsp;</p>



<p>viciante. saboroso. encorpado.</p>



<p>porque cada gole de você me revela uma outra coisa. um detalhe mais seco, uma nota mais densa, uma variação mínima que só aparece pra quem consegue te ler.</p>



<p>a intensidade está na forma como segura o calor sem queimar, de manter o sabor sem pesar, sem repetições.</p>



<p>e é assim, também, que me envolve. aos poucos.</p>



<p>ocupando, aquecendo, aprofundando.</p>



<p>e mais uma vez, eu posso dizer: “um café com notas de caramelo, por favor.”&nbsp;</p>



<p>e te sentir cada vez mais perto, ansiosa pela tua volta, em qualquer momento desses meus derradeiros dias da semana.</p>



<p>Foto: Angela Monize</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/cafe-com-notas-de-caramelo/">Café com Notas de Caramelo </a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Confrontar-se-á</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 03:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Confronto]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça, 14 de abril de 2026 é difícil falar sobre perspectivas sem citar a coragem. ela está em pequenas decisões, quase invisíveis, como se o corpo soubesse antes da mente que é preciso continuar. é preciso ter coragem. já tive coragem muitas vezes…de avançar mesmo sem saber o que encontraria.de sustentar [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/confrontar-se-a/">Confrontar-se-á</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Terça, 14 de abril de 2026</p>



<p>é difícil falar sobre perspectivas sem citar a coragem. ela está em pequenas decisões, quase invisíveis, como se o corpo soubesse antes da mente que é preciso continuar. é preciso ter coragem.</p>



<p>já tive coragem muitas vezes…<br>de avançar mesmo sem saber o que encontraria.<br>de sustentar a esperança quando ela parecia longe demais de minhas mãos.<br>coragem de fazer um check-in, de abrir um livro, de encarar um diagnóstico, de aplicar insulina à mão firme.</p>



<p>coragem em cada gesto que nos mantém vivos.<br>até respirar, às vezes, exige isso. uma escolha que fazemos enquanto ansiosos.</p>



<p>outro dia, no ônibus, vi uma moça. estava em uma janela, com o corpo levemente inclinado, como se protegesse o que segurava. uma carta. o papel já não era totalmente branco, havia marcas. talvez do tempo, talvez dos dedos que o tocaram antes. a tinta parecia densa, irregular em alguns pontos, aquele cheiro de papel e tinta de caneta, como se tivesse sido escrita com pressa ou com emoção demais para caber em linhas retas.</p>



<p>ela sorria.</p>



<p>daqueles sorrisos que se guarda no canto da boca, quase secreto. os olhos percorriam o papel com cuidado, como quem revisita algo que ainda pulsa. havia ali uma delicadeza tão sútil, não pedia testemunha, mas eu vi.</p>



<p>e pensando a respeito, existe coragem nisso também…<br>se permitir sentir,<br>guardar,<br>permitir que algo nos aconteça na surpresa de um segredo bem guardado, sem defesas.</p>



<p>a coragem de um amor nos leva a lugares inesquecíveis…</p>



<p>eu gosto de observar o mar e suas ondas. o encaro como quem encara algo maior do que pode compreender. as ondas se levantam diante de mim com uma força quase desproporcional. mais altas do que eu, mais largas do que qualquer cálculo simples. existe um movimento bruto nelas, uma violência rara que só algumas coisas na nossa vida tem ou podem existir.</p>



<p>e ainda assim, são belas.</p>



<p>uma beleza avassaladora…</p>



<p>há quem diga que certas praias não são feitas para entrar. que o mar leva tudo para o seu devido lugar. e talvez leve. mas naquele momento, eu não pensei em absolutamente nada. somente na ideia do que aquilo causava em mim.</p>



<p>o som das ondas era ensurdecedor, mas um silêncio interno me sustentava por alguns instantes. os pensamentos mais torpes recuaram. as ideias repetitivas, as inquietações que costumam me ocupar, simplesmente não encontraram espaço.</p>



<p>fiquei.</p>



<p>olhando.</p>



<p>sentindo o vento atravessar o rosto, o sal no ar, a pele reagindo à umidade, o chão levemente instável sob os pés. nenhuma explicação era tão óbvia quanto sentir tudo aquilo.</p>



<p>uma grandeza sem excessões.</p>



<p>me entrelaçar naquele som, naquela repetição que nunca é igual, naquela força que não se interrompe.</p>



<p>e foi ali que entendi que coragem não é um ato isolado. é um estado que se constrói dentro de si.</p>



<p>ela aparece quando a gente decide não recuar diante do que não entende. quando se sustenta o olhar, quando não se desvia, é quando conseguimos permanecer mesmo sem garantia de conforto.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2026/04/image-64-1024x683.png" alt="" class="wp-image-174217" srcset="https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2026/04/image-64-1024x683.png 1024w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2026/04/image-64-300x200.png 300w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2026/04/image-64-768x512.png 768w, https://ipiracity.com/wp-content/uploads/2026/04/image-64.png 1536w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p>a coragem é um ato de confronto. confrontar-se e ir. confrontar-se mesmo temendo. confrontar-se e reconhecer-se</p>



<p>conhecer o desconhecido, não exigir respostas.</p>



<p>é viver o que não tem forma ainda, no que não oferece segurança, no que não se deixa prever. é aceitar que há partes da vida que não serão organizadas antes de serem vividas.</p>



<p>e ainda assim, ir.</p>



<p>porque a coragem não elimina o medo. o medo a acompanha.</p>



<p>ela existe ao lado do tremor, da dúvida, da incerteza, e mesmo assim, sustenta o passo.</p>



<p>é um sintoma vivo. circula na gente como algo que precisa ser usado para não desaparecer. quanto mais se pratica, mais ela encontra espaço. quanto mais se evita, mais ela se recolhe.</p>



<p>essa disposição quase íntima de continuar abrindo portas que não sabemos onde dão, de ler cartas que ainda doem um pouco, de olhar o mar mesmo quando ele parece grande demais e perceber que alguma coisa faz sentido.</p>



<p>porque, no fundo, a vida não se revela para quem observa de longe.<br>ela se manifesta para quem se deixa levar pela coragem de existir.</p>



<p>Foto: Angela Monize</p><p>The post <a href="https://ipiracity.com/confrontar-se-a/">Confrontar-se-á</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Cartografia da Perda (III)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jorge Wellington]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 00:58:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ângela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[Bahia]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[colunistas]]></category>
		<category><![CDATA[Angela Monize]]></category>
		<category><![CDATA[cartografia]]></category>
		<category><![CDATA[perda]]></category>
		<category><![CDATA[Sinais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Segunda, 6 de abril de 2026 o luto não avisa quando vem. passa pela beira dos dias, nos detalhes mais distraídos, como quem testa o espaço. talvez dê sinais, pequenos sinais, quase imperceptíveis. mas nunca certezas. perder é uma palavra demasiadamente curta para abarcar todos os significados. os conjuntos que criamos [&#8230;]</p>
<p>The post <a href="https://ipiracity.com/cartografia-da-perda-iii/">Cartografia da Perda (III)</a> first appeared on <a href="https://ipiracity.com"></a>.</p>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Por Angela Monize &#8211; Segunda, 6 de abril de 2026</p>



<p>o luto não avisa quando vem.</p>



<p>passa pela beira dos dias, nos detalhes mais distraídos, como quem testa o espaço. talvez dê sinais, pequenos sinais, quase imperceptíveis. mas nunca certezas.</p>



<p>perder é uma palavra demasiadamente curta para abarcar todos os significados. os conjuntos que criamos dentro de nós mesmos a cada sugestão do que se pode vir a perder.</p>



<p>perder pessoas, coisas, ou momentos… perder versões inteiras de si.</p>



<p>hoje eu acordei e me veio a sensação de que não gostaria de ter acordado.&nbsp;</p>



<p>o corpo ainda preso em um cansaço que não é só físico, como se tivesse passado a noite inteira tentando reorganizar a vida, os sonhos, as miragens. demorei a dormir. virei de um lado pro outro, contando pensamentos em vez de carneirinhos. e quando finalmente dormi, não tardou a amanhecer.&nbsp;</p>



<p>hoje, em específico, houve uma recusa em mim.</p>



<p>não quero falar.</p>



<p>não quero sustentar conversas, nem encarar rostos que esperam de mim alguma coisa.</p>



<p>fico melhor assim, observando.</p>



<p>as árvores se movem na estrada. o verde parece mais denso, bonito, visível; acalma as minhas pálpebras cansadas. eu observo o filamento, o solo, a pista…</p>



<p>o ar carrega um cheiro estranho, meio metálico, meio gasto. lembra carro velho aquecido pelo sol, aquele calor abafado que fica preso no estofado. mas sobre a minha pele há outro mundo.</p>



<p>meu perfume tem uma intensidade quase hipnótica, um aroma doce que se abre devagar, com jasmim denso e um fundo ambarado. um adocicado quase como se estivesse envolto em alguma coisa mais profunda, mais terrosa, mais viva. grudando na respiração, se mistura ao corpo como açúcar queimado, desses que deixam um rastro no fundo da língua.</p>



<p>depois vem algo mais seco, firme como madeira aquecida, me lembra a terra que já conheceu a chuva e agora guarda o cheiro dela em silêncio. e por fim, o corpo de jasmim exala a cada respiração.</p>



<p>e é curioso como, mesmo nesse estado, eu escolhi algo assim.</p>



<p>como se, no meio do cansaço, ainda houvesse em mim uma vontade de existir.</p>



<p>hoje eu tive um pesadelo.</p>



<p>uma menininha gritava, desesperada, com um pincel nas mãos e tinta preta escorrendo pelos dedos. ela tentava me pintar, cobrir minha pele com aquilo, como se quisesse me transformar em algo que eu não conseguia reconhecer. eu gritava também, pedindo pra que ela parasse, tentando afastar aquele gesto bruto.</p>



<p>mas havia algo ali que me impedia de reagir com dureza.</p>



<p>ela tremia.</p>



<p>ela não sabia o que estava fazendo, mas fazia com uma urgência quase fatal, como se aquilo fosse a única forma de se expressar.</p>



<p>e mesmo enquanto eu era atingida, eu sabia que ela precisava de ajuda.</p>



<p>talvez seja isso que sempre me atravessa. essa forma de olhar o outro mesmo quando me dói, mesmo quando fere. uma empatia que não se desliga, um respeito pelas dores que não são minhas, mas que eu reconheço como se fossem.</p>



<p>e ainda assim, eu sigo.</p>



<p>nunca fui alguém sem esperança.</p>



<p>há sempre alguma coisa em mim que insiste, mesmo quando tudo ao redor parece querer a perda.</p>



<p>a ansiedade me visita com frequência, me atravessa em ondas que às vezes tiram o ar, mas existem instantes, pequenos e frágeis, em que eu consigo ficar no agora.</p>



<p>sentir o chão.</p>



<p>respirar sem antecipar o próximo desastre.</p>



<p>deixar o que pesa um pouco mais ao fundo, fazer, nesse sentido, uma escolha momentânea de não se afogar.</p>



<p>hoje, enquanto escrevo, penso em alguém que faz parte da minha vida. alguém que já me fez sorrir e chorar.</p>



<p>ela amplia os momentos com suavidade, mas é firme na mesma proporção. carrega uma alegria que não depende de circunstância alguma.</p>



<p>de qualquer maneira, sinto falta de sua companhia…</p>



<p>me pego pensando no que ainda não vivi.</p>



<p>nas histórias que ainda não comecei, nos lugares que ainda não pisei, nas versões de mim que ainda não conheço.</p>



<p>há um impulso em mim que não se satisfaz com o que já foi.</p>



<p>uma vontade de arriscar,</p>



<p>de atravessar o que parece incerto,</p>



<p>de ir justamente onde o sinal não fecha, onde o fluxo não se interrompe, onde o risco existe como possibilidade viva.</p>



<p>porque é ali que a vida se mostra.</p>



<p>e o luto…</p>



<p>permanece como uma camada de mim.</p>



<p>como algo que existe junto, em segundo plano.</p>



<p>há perdas que não acontecem de uma vez.</p>



<p>há pessoas que se desfazem de nós enquanto ainda estamos com os corpos encaracolados, há vínculos que se rompem em silêncio, e há versões que deixam de existir somente pela rotina gasta.</p>



<p>e é engraçado pensar que quando isso acontece, emergem as memórias esquecidas, os sentimentos não resolvidos,</p>



<p>pensamentos que estavam soterrados.</p>



<p>tudo ganha forma.</p>



<p>e, às vezes, dói de um jeito quase físico. ou até físico de fato.</p>



<p>há quem tente reconstruir o que já não existe, refazer a pessoa dentro da própria cabeça, reorganizar o passado como se isso fosse possível.</p>



<p>mas o que é…</p>



<p>é.</p>



<p>e ninguém sente isso por você.</p>



<p>há uma honestidade dura nesse lugar,</p>



<p>uma solidão que não é vazia, mas cheia de tudo aquilo que não foi dito, não foi feito, não foi vivido.</p>



<p>e mesmo assim, continuar é a única coisa que tenho.</p>



<p>subo mais um lance de escadas,&nbsp;</p>



<p>tateando os degraus,</p>



<p>observo tudo ao meu redor,</p>



<p>respirando,</p>



<p>aceitando o ritmo.</p>



<p>percebendo o que depende ou não de mim.</p>



<p>porque, no fundo, eu conto com o tempo.</p>



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