Margareth Pederneiras e Luiza Silva (VPSGRIS/Fiocruz)
Na mesma semana em que a Fiocruz debateu no Senado Federal o seu processo de internacionalização como instituição estratégica do Estado, uma delegação de Moçambique visitou (8/4) o campus da Fundação, no Rio de Janeiro, para discutir possibilidades de ampliação da cooperação bilateral em saúde. A relação da Fiocruz com o país africano já é o exemplo mais bem-sucedido de cooperação estruturante no continente, compreendendo atividades nas áreas de ensino, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e institucional, além de comunicação, informação e formulação de políticas. O foco agora é avançar, no âmbito dessa cooperação Sul-Sul, na produção de medicamentos.
Estiveram na Fiocruz a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação de Moçambique, Maria Manuela dos Santos Lucas, e o diretor do Instituto Nacional de Saúde (INS) moçambicano, Eduardo Samo Gudo. A delegação foi recebida pela vice-presidente adjunta de Educação, Informação e Comunicação da Fiocruz, Eduarda Cesse, e pelo coordenador de Cooperação Internacional da Vice-Presidência de Saúde Global e Relações Internacionais (VPSGRIS/Fiocruz), Pedro Burger. A visita ainda contou com a presença do embaixador do Brasil em Maputo, Ademar Seabra da Cruz Jr., além de assessores e representantes de outras instâncias da Fiocruz.
A vice-presidente adjunta, Eduarda Cesse, ressaltou o papel da Fiocruz no fortalecimento do INS de Moçambique, destacando as missões de trabalho realizadas desde 2022. Em novembro de 2025, durante visita oficial do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Moçambique, a Fiocruz assinou um Memorando de Entendimento (MdE) com o INS do país e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), que estabeleceu as bases para cooperação estruturante no âmbito da implementação da Escola Nacional de Saúde Pública de Moçambique.
Diretor do INS moçambicano, Eduardo Gudo reforçou a intenção de iniciar tratativas que alinham “a sustentabilidade da chamada medicina verde com os saberes da medicina tradicional”. O primeiro passo seria a definição de pontos focais nas duas instituições.
O coordenador Pedro Burger reafirmou o protagonismo externo da Fundação para consolidar o Sistema Nacional de Saúde do país, tomando como base a experiência brasileira com o Sistema Único de Saúde (SUS). “O Sistema Nacional de Saúde é hoje a instituição pública de maior importância para Moçambique “.
Cooperação com Moçambique
A relação da Fiocruz com Moçambique é pautada na cooperação estruturante para o fortalecimento do sistema público de saúde local. Dessa forma, espera-se que o país, assim como os países da região, esteja melhor preparado para enfrentar crises sanitárias com respostas mais efetivas. A Fiocruz tem um escritório em Moçambique desde 2008.
A área de educação tem sido uma das mais ativas nessa cooperação, com cursos de nível técnico à pós-graduação voltados para a formação de profissionais da saúde conforme necessidade do lado moçambicano. Apenas o Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde, fruto de parceria entre a Fiocruz e o INS moçambicano, já formou mais de 60 mestres.
No campo da diplomacia comercial, destaca-se o apoio da Fiocruz, através do Instituto de Tecnologia em Fármaco (Farmanguinhos), para a criação e a operação da primeira indústria farmacêutica 100% pública de Moçambique com parceria com a Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM). Essa cooperação, iniciada em 2003 tinha como principal objetivo estruturar uma indústria local para produção de medicamentos essenciais, como os antirretrovirais, reduzindo a dependência de importações.
A Fiocruz foi responsável pela coordenação e execução do projeto, que culminou na instalação da estrutura física da fábrica, inaugurada em 2012 e plenamente operacional sob gestão do governo moçambicano a partir de 2021. A Fundação apoiou com a transferência de tecnologia de medicamentos antirretrovirais, capacitação de recursos humanos, e apoio à obtenção de registros de medicamentos junto à autoridade regulatória local.
Fonte: Fiocruz / (Foto: Peter Ilicciev)