Indústria nacional responde por 79,2% das compras públicas de medicamentos

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A indústria farmacêutica nacional respondeu por 79,2% das unidades de medicamentos compradas por estados e municípios em 2024, segundo levantamento inédito da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (ALANAC). O estudo cruza, pela primeira vez, a base de compras públicas do Ministério da Saúde com a base de pareceres de registro de medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e foi divulgado 25 de agosto de 2026, em Brasília.

A metodologia consistiu em classificar, por CNPJ do fabricante, os registros de compras estaduais e municipais do Banco de Preços em Saúde (BPS) referentes a cada ano entre 2020 e 2024 — mais de 135 mil registros no período —, base mantida pelo Ministério da Saúde que reúne notas fiscais de aquisição de medicamentos por entes federados, mas não contempla compras federais. 2024 é o último ano com base fechada: os registros de 2025 e 2026 ainda estão sendo alimentados pelos estados e municípios, com defasagem típica desse tipo de base pública, e por isso ficaram fora da série. Em paralelo, a ALANAC analisou 1.319 pareceres recentes de avaliação de medicamentos na Anvisa — base atualizada até 19 de agosto de 2026 —, classificando cada petição pela origem de capital da empresa requerente.

Se o ritmo observado entre 2020 e 2024 se mantiver, a participação nacional nas unidades compradas por estados e municípios deve superar 80% já em 2025 e se aproximar de 83% ao final de 2026, projeta a ALANAC a partir da tendência histórica da série — uma projeção, e não um dado medido: as bases de 2025 e 2026 do BPS ainda estão sendo alimentadas pelos entes federados e hoje reúnem menos de um décimo do volume anual típico, o que impede comparar os números parciais já registrados com os cinco anos fechados da série 2020-2024.

Fonte: ALANAC, sobre registros do Banco de Preços em Saúde (BPS/Ministério da Saúde), compras estaduais e municipais de 2020 a 2024 com registro na Anvisa. As faixas de valor consideram, respectivamente, os cenários sem e com o maior contrato individual de cada ano; a diferença para 100% em cada linha corresponde a fabricantes ainda não classificados pela metodologia

O resultado mostra uma liderança que não é apenas atual, mas vem se consolidando ano a ano dentro do próprio sistema de compras públicas: a participação nacional nas unidades de medicamentos compradas por estados e municípios subiu de 69,1% em 2020 para 79,2% em 2024, segundo o BPS.

Fonte: ALANAC, sobre base de pareceres de avaliação de medicamentos da Anvisa (extração de 19/08/2026)

A distância aparece no segmento de maior valor agregado. Nas petições de medicamentos novos e inovadores, a participação de empresas nacionais cai para 12,0%; nos produtos biológicos, para 15,2%. É precisamente esse segmento que concentra o gasto público: biológicos e medicamentos novos somaram R$ 20,93 bilhões em 2024 no canal Governo da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED/Anvisa), equivalentes a 81,7% de todo o valor transacionado no canal, com apenas 21,1% das unidades — o inverso do perfil da indústria nacional, majoritária em volume e minoritária em valor.

A liderança nacional se estende também aos medicamentos similares, categoria de alto volume no SUS: 66,7% das petições ativas partem de empresas de capital brasileiro, praticamente o dobro da fatia registrada em novos entrantes. O padrão revela uma indústria que hoje sustenta as categorias de maior volume do abastecimento público — genéricos, similares e, por extensão, a maior parte das unidades compradas por estados e municípios medidas pelo BPS —, mas que ocupa posição residual nas categorias de maior complexidade tecnológica, justamente onde se concentram o gasto público e a próxima fronteira de receita do setor. É esse descompasso entre essencialidade operacional e participação em valor que a ALANAC aponta como a principal lacuna a ser preenchida pela política industrial em curso.

A concentração de valor no segmento inovador aparece também no dado transacional do BPS, ano a ano. Em 2024, um único contrato identificado na base, firmado com a multinacional AstraZeneca no valor de R$ 1,66 bilhão para o medicamento tezepelumabe, equivale a cerca de 20% de todo o valor analisado pela ALANAC naquele ano. Em 2023, o maior contrato individual já seguia o mesmo padrão: R$ 1,37 bilhão pago à multinacional Amgen por carfilzomibe, valor que superava a soma de todas as compras atribuídas a fabricantes nacionais no levantamento daquele ano.

Movimento de nacionalização

Parte dessa distância deve se estreitar nos próximos anos, à medida que avançam os instrumentos de política industrial voltados ao setor. A Estratégia Nacional do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) prevê R$ 42 bilhões em investimentos até 2026; o BNDES e a Finep já destinaram R$ 11,3 bilhões ao setor desde 2023; e o governo projeta elevar a autonomia produtiva do país para o Sistema Único de Saúde (SUS) dos cerca de 50% atuais para 70% até 2033, segundo declaração do vice-presidente Geraldo Alckmin em 19 de agosto.

“A indústria nacional já é a espinha dorsal do abastecimento de medicamentos no Brasil, no varejo e também nas compras públicas. O próximo passo é levar essa mesma liderança para o segmento de maior valor do mercado, o de medicamentos inovadores”, diz Henrique Tada, presidente executivo da ALANAC.

Para Tada, os investimentos em curso e as metas de nacionalização já anunciadas sustentam essa trajetória. “Temos a base, a escala e a experiência que vêm do volume que já entregamos ao país. Com os investimentos e as metas de nacionalização em curso, o caminho natural é avançar também na liderança do segmento de inovação, que é hoje o de maior valor do mercado público de medicamentos”, afirma.

O levantamento integrou a programação do III Seminário DIFAN, realizado 25 de agosto, em Brasília, que reuniu representantes do Ministério da Saúde, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), , do BNDES e da Finep ao lado da indústria farmacêutica nacional.

Com Informações do Site Medicina SA

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