Michael Jackson foi mesmo um gênio?

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O mito de Michael Jackson talvez tenha sido fabricado mais pelo mercado do que pela genialidade artística que o consagrou.

O filme “Michael”, dirigido por Antoine Fuqua e protagonizado pelo sobrinho do Rei do Pop, Jaafar Jackson, é uma hagiografia. Não há estudo de personagem, há espetáculo, há música, há dança, há esquisitices fofas, há culto à personalidade. Entramos na sessão com o Michael Jackson mitológico na cabeça. Saímos da sessão fazendo moonwalk, exaltando o Michael Jackson mitológico. Em momento algum surge o homem por trás do mito. Natural, considerando que a família e os advogados do espólio acompanharam a produção de perto. Essa é a mais autorizada das biografias. Até mesmo o sempre demonizado Joseph Jackson ganha uma face mais humana, nuances, não é apenas um psicopata torturador de crianças. Afinal, pai é pai.

De modo geral, a crítica especializada tem massacrado o filme. Acho um exagero. É um bom produto, bem embalado e sem glúten, mas com muito glitter. Funciona como entretenimento. Vai agradar aos fãs. Todos vão sair impressionados com a caracterização e a performance de Jaafar Jackson. Sua atuação é convincente. Se tivesse um roteiro mais profundo e consistente, não duvido que até poderia aproximar-se da profundidade alcançada por Val Kilmer em “The Doors”, dirigido por Oliver Stone, ou Jamie Foxx em “Ray”, dirigido por Taylor Hackford. Se suas falas soam autoindulgentes e superficiais, não é culpa dele, é culpa da imagem que o próprio Michael construiu. Em resumo, como aprendemos em “O Homem que Matou o Facínora”, “se o mito é mais interessante do que o fato, publique-se o mito”.

Talvez essa seja a grande questão: o Michael retratado no filme, portanto, o Michael criado pelo próprio Michael, é uma pessoa bidimensional. Não parece ser muito sofisticado ou culto. Adulto, ainda é fascinado pelas histórias infantis que leu na infância. Seu gigantesco talento musical é puramente intuitivo, não fruto de trabalho, estudo ou esforço. O que obviamente não é um problema, mas uma marca de personalidade e, mais ainda, uma característica do produto que se deseja vender. Em grande medida, a popularidade alcançada por Michael Jackson foi fruto da simplicidade de sua mensagem, dos aspectos malabaristas de suas performances, da peculiaridade de sua aparência. Não possui a dubiedade de Madonna, a faceta experimentalista de Prince ou a sofisticação intelectual de Bob Dylan. Michael é o pop em sua mais pura essência. Não é só música, é audiovisual. Sem a televisão, Michael Jackson seria grande, mas não seria o Rei.

Sendo o Rei, a despeito de todas as controvérsias em que se envolveu, sua morte foi um evento de ruptura. Mais do que a de Elvis, mais do que a de John Lennon ou Freddie Mercury, muito mais do que a do rival Prince e a de David Bowie, que talvez fosse um gênio ainda maior.

A morte de uma celebridade, seja qual for seu nível de celebridade, sempre vem acompanhada de palmas e lamentos. A morte de um astro mundial, como era Michael Jackson, multiplica essa tendência à enésima potência. O lugar-comum entre seus admiradores mais afoitos é dizer que ele saiu da vida para entrar na história, que se tornou, definitivamente, um mito. Os mais cínicos podem afirmar que a morte precoce lhe fez bem. Agora ele não pode mais fazer bobagens, acumular dívidas ou arranhar sua imagem dos tempos áureos. Os mais cínicos dentre os cínicos podem ir além e defender que a morte valorizou seus feitos.

Praticamente em todos os textos que abordaram a morte de Michael Jackson, e foram muitos, ele é chamado de gênio. Definir o conceito de gênio é complexo. A rigor, ele pertence ao período romântico. Não existia antes e passou a existir de modo totalmente diferente depois. O século XX, de certo modo, desfigurou a palavra. Ao mesmo tempo em que esvaziou seu sentido, difundiu-a e, estranhamente, popularizou-a. Os gênios multiplicaram-se, mas também passou a ser possível questioná-los. Se antes a genialidade era estabelecida, fundamentalmente, pela capacidade criativa de um indivíduo e o reconhecimento da mesma pela comunidade culta da época como algo assombroso e original, na sociedade pós-industrial o fator genialidade está intimamente ligado ao fator números. Nessa nova configuração, um artista criativo que não aparece fora do círculo dos iniciados não pode ser gênio. É apenas mais um entre muitos. O título de gênio, antes raro, muitas vezes só concedido postumamente, tornou-se um rótulo definidor de carreiras. A nova genialidade, dos séculos XX e XXI, é, por definição, um produto. O que não significa que todos os candidatos a gênio na era pós-moderna sejam fabricados pelo mercado.

O caso de Michael Jackson é um dos mais difíceis de julgar. Não por sua megalomania, por ter enlouquecido ou por ter sofrido acusações sérias. Tudo isso é irrelevante nesse debate. Alguns dos maiores talentos da humanidade foram canalhas inescrupulosos: de Rousseau a Sade, de Brecht a Chaplin, passando por Roman Polanski e Ferdinand Céline. Para ser justo com um artista ou pensador, é preciso considerar apenas sua obra no contexto histórico em que foi produzida.

Michael Jackson
Jaafar Jackson surge caracterizado como Michael Jackson na cinebiografia Michael, dirigida por Antoine Fuqua

Muitos consideram impossível haver genialidade em música popular, quanto mais em música pop. Não creio que seja tão simples assim, embora o pop esteja intimamente ligado ao pueril. Segundo Ray Browne, teórico que cunhou o conceito de “cultura pop”, na década de 1960, “o termo pop, como o conhecemos hoje, se refere basicamente àquilo que agrada aos jovens e que tem popularidade, ou seja, que gera dinheiro”. Michael Jackson, sendo o Rei do Pop, foi a encarnação máxima desse princípio. Mas foi, acima de tudo, fruto de uma era. Não o artista Michael Jackson, mas o fenômeno Michael Jackson só foi possível porque surgiu no momento de maior apogeu da indústria fonográfica, coincidindo inclusive com o estabelecimento da MTV como definidor de tendências globais. Importante lembrar que contou com um grande guru, o lendário compositor e arranjador Quincy Jones, produtor de “Off the Wall”, “Thriller” e “Bad”, seus melhores trabalhos. Sempre considerei subestimada a contribuição de Jones na lapidação artística do pequeno vocalista do Jackson Five. Michael Jackson era o homem certo na hora certa. Tinha fama de bom moço, tinha carisma, era bonito, experiente, muito bem produzido e, sobretudo, cantava melhor que Madonna e era menos agressivo que Prince. Um artista negro feito sob medida para ser aceito pela classe média americana; e, por extensão, mundial.

É comum o pop canibalizar elementos culturais mais sofisticados ou de guetos, tornando-os aceitáveis ao gosto médio. A estratégia mais usada é torná-los espetaculares, enchendo-os de luzes, cores e movimentos, acelerando o ritmo. Michael Jackson fez isso com sua influência musical mais evidente, Marvin Gaye. Visualmente, em termos de figurinos e performances, incluindo coreografias, a influência de James Brown é inegável. A revolução que fez nos clipes musicais foram passos adiante em experiências estéticas que tiveram como pioneiros nomes como Beatles e, com maior similaridade, David Bowie. Nada disso por si só é negativo. Inspirar-se em outros artistas é comum tanto em gênios criativos quanto em farsantes. Não significa muito.

É possível que os limites do talento, ou do gênio, de Michael Jackson tenham sido estabelecidos pelo gênero que abraçou. Em maio de 1989, Paul McCartney concedeu uma entrevista às páginas amarelas da revista Veja. O jornalista perguntou: “O que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não têm?”. O ex-beatle respondeu: “Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso, mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores do ponto de vista musical. Até hoje são modernas, intrigantes, ousadas. Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas sobretudo é um showman. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento (…). Eu compus com Michael Jackson e compus com John Lennon e posso dizer que John Lennon era realmente um gênio musical. Ele podia não cantar como Michael Jackson e certamente não dançava como ele — a menos que estivesse bêbado, mas isso era uma outra história —, mas era um homem muito profundo e um músico excepcionalmente habilidoso”.

Justificar a análise de McCartney pela inimizade com Michael Jackson, provocada pela compra dos direitos autorais de parte das músicas dos Beatles, parece-me pobre, sobretudo considerando as rusgas históricas entre ele e John Lennon. E McCartney não criticou apenas Michael Jackson, criticou toda uma tendência musical dominante nos anos de 1980, que supervalorizava a forma em detrimento do conteúdo. Ademais, não se pode negar que, como pede a cartilha do pop, as letras de Michael Jackson, a despeito das melodias contagiantes, sempre foram extremamente simplistas. “Billie jean”, por exemplo, trata de um sujeito negando a paternidade do filho de uma garota com quem fez sexo casual. “Beat it” não vai muito além da repetição incessante do refrão que manda “cair fora”. Mas Michael Jackson nunca pretendeu ser um filósofo ao estilo de Bob Dylan. Cobrar-lhe profundidade é inútil. Sempre preferiu comover pelo sentimentalismo, como em “We are the world”. Uma estratégia válida, enfim.

Um dos fatores de medida da importância de um artista, do alcance de seu gênio, seria a lista de figuras influenciadas por ele. É comum afirmar que Michael Jackson influenciou toda a música feita depois dele. Mas que música é essa? Feita por quem? Imagino que os nomes mais evidentes sejam os de Justin Timberlake, Beyoncé, Britney Spears, Aaron Carter, toda a turma do rap e trap, além de outras tendências da música urbana.

Grande parte do fascínio de Michael Jackson deve-se ao estrondoso sucesso alcançado nos distantes anos de 1980. Sua fama nas duas décadas seguintes foi residual, retroalimentada pela sucessão de escândalos. Sua voz, suas músicas e seus clipes ficaram cada vez piores. De gênio, passou a ser visto como louco. Para comparar, Madonna evoluiu como cantora e showgirl, ganhando respeito. Prince, com uma série de projetos conceitualmente ambiciosos, tornou-se um artista quase underground, vanguardista, experimental.

A morte parece ter devolvido Michael ao Olimpo dos gênios. Citam-no ao lado de outros célebres músicos falecidos precocemente. É preciso separar as coisas. Comparar com Mozart não faz sentido. Diferentemente de Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix e Kurt Cobain, todos mortos com apenas 27 anos, deixando incompletas carreiras, aparentemente, promissoras, o ciclo criativo de Michael Jackson parecia estar esgotado. Assemelha-se mais a Elvis, seu “sogro”, que morreu semiaposentado, cantando baladas românticas para antigas fãs velhas e gordas em cassinos de Las Vegas. Curiosamente, nenhum dos nomes citados foi artista pop. Portanto, se Michael Jackson era gênio, possivelmente foi o primeiro e único em seu estilo. Até porque uma pergunta que precisa ser feita é: Michael Jackson fazia música pop ou fazia música de Michael Jackson, música para assistir, imitar os passos, imitar os vocais dando gritinhos? Essas imitações são um fenômeno cultural por si só. Com certeza foram elementos pensados na etapa de produção dos álbuns.

Michael Jackson foi gigante, possui lugar garantido na História da Música. Não como um inovador ou alquimista sonoro, conforme muitos de seus apologistas defendem hoje. Será lembrado como um símbolo dos anos de 1980, assim como os Bee Gees são um símbolo da década de 1970. O grosso de sua obra, como não é nada incomum, mesmo entre os grandes, será esquecido. Músicas como “Billie jean”, “Beat it” e “Thriller” sempre vão tocar em festas, mas dificilmente vão receber respeitabilidade artística de longo prazo, como, por exemplo, “Stairway to heaven”, “Like a rolling stone” ou “The end”. Serão para sempre “músicas do Michael”.

Por fim, depois de tantas voltas, é muito provável que George Bernard Shaw estivesse correto quando escreveu que “os gênios não existem. Eu sou um gênio e, portanto, sei. O que há é uma conspiração para fazer de conta que os gênios existem e uma escolha das pessoas certas para assumir o papel imaginário de gênio. O difícil é ser escolhido”. Com apenas 25 anos, Michael Jackson foi escolhido, como antes havia acontecido com Orson Welles, outro que caiu em desgraça depois de criar sua obra-prima. Certamente, essas “escolhas” não são aleatórias. O escolhido precisa ter, além de sorte, seus méritos, para tornar a “conspiração” convincente. Talvez consista nisso a verdadeira genialidade.

Ademir Luiz

Ademir Luiz

Doutor em História Medieval. Pós-doutorado em Poéticas Visuais e Processos de Criação. Bolsista pesquisador do Instituto Camões de Portugal. Indicado ao Prêmio Capes de teses. Professor universitário, romancista, contista, critico, ensaísta e poeta bissexto. Criador da Teoria do Chaves, o texto mais lido e compartilhado da internet sul-americana.

Fonte: Bula Conteúdo

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